2016 – 2017 DIFERENCIA: UM SIMPLES ALGARISMO

2016 – 2017

DIFERENCIA: UM SIMPLES ALGARISMO

O bom do caminho é ter volta,

para a ida sem vinda basta o tempo.

(Mia Couto)

TEMPUS,

Tempo,

Tiempo,

Time.

Até aqui a língua latina, com pequenas variantes na escrita e na pronuncia, fornece a palavra. Mas não devemos esquecer que nas línguas saxônicas tem weather, Wetter para o tempo atmosférico, o inglês tem tense para o tempo verbal e assim por diante.

Se agora indagarmos o que é o tempo, S. Agostinho nos dirá: “se ninguém me perguntar, sei o que o tempo é, mas se alguém me perguntar, não sei”. Se isso acontece com um pensador como o bispo de Hipona, o que poderemos dizer nós outros? Peçamos, pois a ajuda dos que se tem aprofundado sobre o assunto. O poeta Drumond de Andrade pergunta-se poeticamente: O tempo passa? Não passa. No contexto do amor em que está inserido o  poema compreende-se a resposta.

 Os Filósofos, confrontados com a mesma questão, raciocinam da seguinte maneira: de um lado, a argumentação cética inclina-se para o não-ser, ao passo que o uso quotidiano da linguagem obriga-nos a dizer, de uma maneira que ainda não sabemos explicar, que o tempo é. O argumento cético é bem conhecido: o tempo não tem ser, já que o futuro ainda não é, o passado não é mais e o presente não permanece. No entanto, as coisas vindouras serão, as passadas foram e as presentes passam. É justamente o uso da linguagem que prevalece no dia-a-dia: o tempo é.

O tempo na Bíblia

O Livro sacro que contem a revelação do Deus transcendente abre e fecha com alusões temporais: “No início Deus criou o céu e a terra” (Gn 1, 1) e “Sim, venho muito em breve” (Apoc 22, 20). Portanto, o Deus que se revela na Bíblia não é uma essência abstrata como em Platão e Aristóteles, ele se manifesta nas suas intervenções na terra, fazendo com que a história se torne historia sacra. “Ab initio”… o ato creador marca o inicio absoluto de nossa história, mas Deus preexiste a esse tempo.

O tempo é como que o cenário preparado por Deus onde se desenvolverá uma história que nos diz respeito. Os sete dias da criação incluem uma justificativa pedagógica, a santificação do sábado; mostram ao mesmo tempo como o Criador vai preparando o mundo, inserindo as criaturas no tempo, até chegar a vez do homem. Assim fica claro que o tempo não é apenas uma sucessão de espaços vazios. A duração terrenal tal e como se apresenta, é primeiro duração cósmica, a qual, com a vinda do homem, torna-se duração histórica, marcada pelas gerações que se sucederão, encaminhando a Humanidade para um fim.

Tempo e eternidade

            Era uma vez… um monge que meditava sobre a eternidade de felicidade que Deus promete aos seus servos fieis. Para melhor refletir, saiu do mosteiro e adentrou a floresta que o rodeava. Após caminhar um pouco, parou; ficou absorto escutando o canto de um pássaro. Passado algum tempo, achou que era hora de voltar. Mas, Oh surpresa! Tudo estava mudado: algumas árvores morreram, outras envelheceram e toda a vegetação era nova. O caminho que conduzia ao mosteiro não era o mesmo, a fachada do edifício também não, etc. Bate a campainha para entrar, mas o irmão porteiro não deixa, ele não é daquele mosteiro. Então veio o Abade que, após consultar os arquivos, encontrou: trezentos anos antes o frade X tinha saído e jamais voltara. O declararam “fugitivo”. Foi o tempo que passou se deliciando no canto daquele passarinho. “Agora compreendo”, disse ele para sim.

O homem vive no tempo, Deus vive para sempre, in saecula saeculorum… Para fazer-nos compreender a natureza dessa duração da qual não temos experiência, a Bíblia opõe ao caráter transitório do tempo cósmico, a eternidade divina: “Mil anos para Deus são como o dia de ontem que já passou” (Ps 102, 12). Enquanto o Génesis mira Deus “ab initio”, os Provérbios o contemplam antes do tempo, “desde a eternidade” (Provs 8,22); o Os 90,2 diz: “de eternidade em eternidade tu es Deus”.

Pensadores como JL Borges e O. Paz mostraram de diversas maneiras seu interesse no tempo. Borges, em Otras inquisiciones (1952), trata diretamente do tema no breve ensaio “El tiempo y J.  W. Dunne”. Pensar no tempo torna inevitável pensar na contraparte do mesmo, a eternidade. Literalmente, e no original, diz: Los teólogos definen la eternidad como la simultânea y lúcida posesión de todos los instantes del tiempo y la declaran uno de los atributos divinos” (p. 26). Essa é a tradução do texto latino: “tota, simul el perfecta viatae posessio” (Boecio 480 – 24) . Em certa maneira a eternidade é também nossa, nesta vida: nos sonhos. Na vigília percorremos o tempo sucessivo, nos sonhos abrangemos uma zona que pode ser vastíssima. Logo mais, para basear seu racioncínio, cita Schopenhauer. Segundo ele “a vida e o sonho são folhas de um mesmo livro; ler ordenadamente é viver; folhar as mesmas, é sonhar”. Conclui citando Dunne: en la muerte aprenderemos el manejo feliz de la eternidad. Recobraremos todos los instantes de nuestra vida y los combinaremos como nos plazca. Dios, nuestros amigos y Shakespeare colaborarán con nosotros”.

Borges encerra chamando essa descrição de “tesis espléndida” (p. 27). Quem ousaria contradizê-lo?

  1. Paz, no ensaio “La llama doble” afirma: somos juguetes del tiempo y de sus accidentes, la enfermedad y la vejez, que deforman el cuerpo y extravían el alma (pág. 131). Contra o argumento cético que nega o tempo, Paz afirma: podemos negar al tiempo, pero no escapar de su abrazo (p. 142). No mesmo ensaio, falando do tempo e do amor, considera que o segundo é vitima do primeiro. Também fala do amor em relação à eternidade: “El amor, por ser tiempo y estar hecho de tiempo es, silumtáneamente, conciencia de la muerte y tentativa de hacer del instante uma eternidad” (p. 212). Tentativa, bem o mal sucedida? Ele mesmo explica:

El amor no nos preserva de los riesgos y desgracias de la existência. Ningún amor, sin expluir a los más apasibles y felices, escapa a los desastres y desventuras del tiempo (p. 210). Um ditado popular diz algo semelhante com outras palabras: “el amor hace pasar al tiempo y el tiempo hace pasar al amor”.

O tempo e a narrativa

            As criações ficcionais que incluem personagens, cenários e acontecimentos – todos ficcionais, se desenvolvem num tempo também ficcional, mas não cessariamente. Podem ser narrados fatos ficcionais que aconteceram num tempo real, histórico. É isso que se verifica na obra de J. Peter Hebel, Reencontro inesperado (Unverhofte Wiedersehen).

Um jovem mineiro nas minas de Falun marca o dia do casamento com a noiva. Mas na véspera da data esperada, ele morre sepultado num desmoronamento no fundo da mina. A noiva decide permanecer fiel àquele amor: fica solteira. Até que,  passados muitos anos, conseguiu reconhecer o corpo do “esposo”, conservado incorrupto graças ás propriedades do vitríolo ferroso da mina. Pouco depois morre ela também. Ora, quanto tempo se passou do começo ao fim da história? Hebel o expressa da seguinte maneira: no longo ínterim

Lisboa foi destruída por um terremoto,

Seguem mais doze eventos mundiais: Independência dos Estados Unidos, inicio da revolução francesa…

E os camponeses cultivavam a terra, os olheiros modelavam o barro… Mas quando os mineiros de Falun em 1809 cavavam na mina a procura de alguns filões de metal…

E freqüente também o escritor narrar suas ficções num cenário real. Tanto neste caso quanto no anterior, tempo e espaço ganham “um banho de ficção”, segundo Alfonso Reyes. Humberto Eco, falando das criações ficcionais, próprias e de outros, diz: “precisamos adotar o mundo real como pano de fundo” (Eco, 1997, 89). Pouco depois afirma que “os mundos ficcionais são parasitas do mundo real”; oferecem um mundo “muito semelhante ao nosso, embora ontologicamente mais pobre” (pág. 91).

Termina aqui a minha breve reflexão sobre o tempo. Muito ainda poderia ser dito ao respeito. Por exemplo, sobre a fraseologia tipo “time is money”, sobre a pressa do homem/mulher atual que “não tem tempo” nem para o essencial. Isso que Mario Sergio Cortella chama tacocracia (no seu livro “Não nascemos prontos”. A tirania dos horários, a rapidez que exigem as engenhocas modernas, supostamente destinadas a servir aos humanos e que acabam subjugando-os. ETC…

Encerro citando uma frase assaz comum no dia-a-dia: matar o tempo. Porém, em vez de matar o tempo, sugiro aproveitá-lo. E nada melhor que aproveitá-lo lendo poesia. Convido, pois, os leitores, a lerem a poesia de Drumond de Andrade mencionada no início deste texto.

O TEMPO PASSA? NÃO PASSA

O tempo passa? Não passa

no abismo do coração.

lá dentro perdura a graça

do amor, florindo em canção.

 

O tempo nos aproxima

cada vez mais, nos seduz

a um só verso e uma rima

de mãos e olhos, na luz.

 

Não há tempo consumido

nem tempo a economizar.

O tempo é todo vestido

de amor e tempo de amar.

 

O meu tempo e o teu, amada,

transcendem qualquer medida.

além do amor não há nada,

amar é o sumo da vida.

 

São mitos do calendário

tanto o ontem como o agora,

e o teu aniversário

é  um nascer a toda hora.

 

E nosso amor que brotou

do tempo, não tem idade,

pois só quem ama escutou

o apelo da eternidade.

Carlos Drumond de Andrade, Poesía Completa. Nova Aguilar, Rio de Janeiro 2004, pág. 1727.

 

Livros consultados:

  • Bíblia, tradução ecumênica
  • VTB – Vocabulário de Teologia Bíblica, Herder Barcelona, 1965
  • Eco, Humberto. Seis passeios pelos bosques da ficção, Companhia das Letras, São Paulo, 1997
  • Ricoeur, Paul. Tiempo y Narración, Siglo XXI, México, 1995
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