O FELIX CULPA!

APRESENTAÇÃO

Em breve celebraremos a Páscoa, a festa mais importante do ano litúrgico. O texto a seguir, além de apresentar o que já sabemos sobre Jesus Cristo, tenta oferecer algo novo, principalmente a respeito de Maria, a mãe do Salvador.

O FELIX CULPA!

En las llagas del Resucitado Dios

quiso conservar para siempre

el tatuaje de su desposorio

con la Humanidad.

  1. Casaldáliga.

A Igreja, no auge de seu entusiasmo pela Ressurreição de Jesus Cristo que celebra na vigília da Páscoa, lança mão do paradoxo, procedimento raro na contida linguagem litúrgica. Com efeito, exorciza, aliás, canoniza a culpa dos nossos Protoparentes que nos granjeou tal e tamanho Redentor (quae talem at tantum meruisti nos habere Redemptorem). Após a sua morte, na semana santa, celebramos a sua Ressurreição no Domingo de Páscoa. ALELUIA!

A crença católica, repetida na missa dominical em todos os cantos do mundo e nas diversas línguas, professa, em primeiro lugar a fé “em Deus Pai Todo-poderoso, Criador do Céu e da terra”; e logo mais, a crença em “Jesus Cristo, Filho único de Deus”, etc. Já o catecismo é mais explícito: “Crer que Jesus Cristo é Filho de Deus é necessário para ser cristão” CIC (Catecismo da Igreja Católica), n. 454. Dentre os diversos “mistérios de Cristo” o CIC assinala a morte (n. 629). Assim pode logo mais dar a ênfase necessária à Ressurreição de Cristo, “acontecimento ao mesmo tempo historicamente atestado (…) e misteriosamente transcendente enquanto entrada da humanidade de Cristo na glória de Deus”(CIC, 656).

O pensamento teológico, embora mais flexível e abrangente que o dogmático, deve manter-se dentro de certos parâmetros, sob pena de ser desautorizado como tal. Já o texto literário pode usufruir a liberdade própria da literatura. Nele encontramos escritores que cuidam para não extravasar a ortodoxia eclesiástica. Deste gênero são, por exemplo, “Operação Cavalo de Troya”, (J. J. Benitez), “El Evangelio de Lucas Gavilán” (V. Leñero), etc. “É claro que os romances convencionais pretendem ser algo mais que história: não é fácil ser imparcial quando se escreve sobre Jesus Cristo” (H. Küng, 1974, 139). Há, no entanto outro tipo de escritores que não fazem questão de apresentar uma imagem autêntica de Cristo. Dentre eles pode-se citar: “Jesus in Osaka” (G. Herrburger) e “The Great Countenance” (F. Andermann).

No universo da língua lusitana temos José Saramago e seu renomado “Evangelho segundo Jesus Cristo”. Com este romance o autor tem ganhado rasgados elogios da Crítica, mas também severas críticas da ortodoxia católica. Difícil é avaliar quais pesam mais. No meu entender o escritor português faz questão de apresentar um Jesus Cristo simplesmente humano do nascimento à morte. Pode se afirmar que o JC do seu Evangelho é tão humano, tão humano que pouco lhe falta para ser divino.

Não podemos continuar sem pelo menos mencionar o Jesus Cristo dos poetas. Começamos com o brasileiro, o paranaense Paulo Leminski e seu pequeno livro Jesus a.C.. No inicio, em vez de prólogo está uma “Carta de Intenções”, uma das quais é “revelar o poeta que Jesus, profeta era, através de uma leitura lírica de tantas passagens que uma tradição duas vezes milenar transformou em platitudes e lugares- comuns” (p. 7). Menciono rapidamente outro poeta e teólogo, o Bispo P. Casaldáliga. Nele poesia e teologia se encontram, formando uma verdadeira teopoética. Além da epígrafe à qual remeto, incluo aqui um verso de seu poema sobre a morte do Che Guevara, um dos seus “Poemas malditos” (ver bibliografia) onde alude à morte de Jesus Cristo:

Morir es siempre vencer,

desde que un dia Alguien

murió por todos, como todos,

matado, como muchos.

Agora apresento brevemente o Jesus Cristo que emerge de um ensaio cujo foco é Maria; o título na tradução espanhola é: MARIA una virgen de carne y hueso, autoria de Lesley Hazleton. O subtítulo introduz o leitor no tema: Una investigación que descubre a la mujer que se esconde detrás del mito. MR Dimensiones, Madrid 2005. Ainda que o foco da pesquisa seja a Mãe, o Filho ganha especial destaque. Sendo judia a autora, poderia se desconfiar que seu livro fosse apenas um escrito panfletista visando desprestigiar a ala dissidente do judaísmo, isto é, o cristianismo. Mas não é essa a impressão do leitor cristão.

Na pesquisa de Hazleton, em vez de nos deparar com uma jovem mulher em oração na sua alcova, perturbada com a visita do Arcanjo Gabriel enviado por Deus, etc. (Evangelho de Lucas), encontramos uma menina quase adolescente que ajuda a avó no trabalho de parteira e outras atividades voltadas à cura das diversas doenças da época; chega a ser uma espécie de “benzedeira”. Entre os “pacientes” de avó e neta não se excluem os guerrilheiros que combatem os malfadados romanos. A “farmácia” onde obtêm os medicamentos são os campos e as colinas próximas de Nazaré onde Maryam pastoreia os rebanhos junto com outras jovens vizinhas. Impossível as jovens pastoras passarem despercebidas aos soldados romanos que ocupam a região. As violações e os saques faziam parte do modus operandi deles, bem como o combate corpo a corpo. Se esse era a sina das moças judias daquela região, o que faria supor que Maryam fosse poupada?

Hazleton rotoma a versão que vem de longa data segundo a qual Maryam teria sido violada (p. 164 e nota correspondente onde cita as fontes). O agressor, um soldado de uma legião enviada à Siria seria um sujeito experiente no metier; sabe surpreender a vítima, onde bater e com que intensidade. A moça, estonteada, mal opõe alguma resistência, aliás, inútil. A narração de Hazleton curiosamente traz à tona a de Saramago quando narra o ato de José e Maria do qual nascera JC (Evangelho segundo Jesus Cristo, pág. 26-27). No entanto, se a suposição de que JC tenha sido gerado como todos os humanos é ousada, o que pensar da hipótese de que o nascimento dele tenha sido o resultado de um estupro, além do mais, praticado por um ser desprezível? Que diferente do cenário descrito pelo evangelista Lucas (1, 6 e ss.) e que culmina com o Ecce ancilla Domini! Diferente mesmo? Perguntam as feministas católicas como Mary Daly (obra citada em Cap. 7 n. 4). Elas veem na imagem convencional de María o modelo de uma vítima da violação. María não tem vontade própria nem exerce nenhum papel ativo. “O que acontece será feito a ela, não por ela” (p. 164). Se Hazleton, judia, fica estarrecida só de imaginar Maryam violada, faltam palavras para expressar o que dirão os católicos conservadores, a própria Igreja Católica que proclama a virgindade de María antes, durante e depois do parto…

A seguir a autora de MARÍA, … nos convida a refletir sobre o estigma da violação; “algo dentro de nós ainda acha que a violação desgraça, humilha, desonra e degrada a mulher” (p. 166). Seja lá qual for o nosso ponto de vista a respeito da violação, uma coisa é certa, Maryam recusou sentir-se victimada, envergonhada. Se assim fosse, poderia ter interrompido a gravidez; sabia como fazer, os meios estavam ao seu alcance. Porém, decidiu ir para frente, ter o filho, “filho de Maria”. Não só isso; o batizará com o nome de Yeshua – Yahveh salva. Transformou assim o ato de suprema humilhação em princípio de salvação. “De uma desgraça criou-se a graça” (p. 167). Isso sim que é dar a volta por cima.

A situação socioeconômica em que Maryam teve que educar Yeshua era assaz difícil. É de se supor que ele herdasse as habilidades dela e aprendesse a sobreviver no ambiente de dominação estrangeira em que viviam. José, o pai, “brilha por sua ausência”.

Passemos agora sem mais delongas a Jerusalém nos dias próximos da Páscoa. A pregação de Jesus em prol da igualdade, da justiça, da não violência ao mesmo tempo em que preocupava as autoridades religiosas, incomodava também os romanos. P. Leminski, comentando o episódio da mulher adúltera (Jn 8, 1-11) e como JC o encarou, observa: “Um homem assim não ia ter vida longa, nem morrer na cama” (p. 34). Este e outros episódios semelhantes eram suficientes para os Sacerdotes pedirem a punição do Nazareno incômodo e para que os romanos atendessem ao pedido. Para estes seria apenas mais uma crucifixão, e o fato de acontecer na Páscoa, uma coincidência.

Acostumados a ver o Crucifixo nas igrejas e até nas repartições públicas, não reparamos no sofrimento que implica essa execução. A agonia do supliciado pode durar algumas horas, se foi flagelado antes, caso contrário pode durar dias. A dor física ia acompanhada da degradação moral. Nu na cruz, o corpo relaxava e soltava os esfíncteres impregnando o local de um fedor insuportável. Além disso, os curiosos caçoavam dos crucificados e os hostilizavam também fisicamente. Os corpos eram deixados na cruz mesmo depois da morte, a menos que algum parente obtivesse a liberação através de suborno, prática em vigor tanto outrora como agora. Jeshua escapou de algumas dessas vexações graças à intervenção de José de Arimateia e à solicitude das mulheres que o acompanharam até então, lideradas por Maryam. Procedeu-se, pois, ao sepultamento com relativa celeridade.

As manifestações extraordinárias que segundo os evangelistas acompanharam a morte de JC bem como as sete palavras são apenas suposições piedosas dos mesmos. Lembre-se que esses textos foram escritos décadas depois dos acontecimentos. Ademais, “o interesse deles não era fazer história, mas teologia, e o intuito era fazer o que faz a teologia: criar vida da morte” (p. 189). Em João e Mateus se diz expressamente: “para que se cumprisse a Escritura”.

Após o consumatum est, após ter arrumado o corpo, limpo e coberto como era o costume, o acomodaram no local cedido por José de Arimateia. Yehshua descansa em paz, mas Miryam não. Agora ela pode dar vazão a toda sua raiva contra tudo e contra todos, Yahweh incluido. O seu é um lamento tão “ensurdecedor que mesmo se nos tamponarmos os ouvidos nos atinge no mais profundo como um prego de ferro que traspassa o coração” (p. 197).

Vem logo mais a pergunta: “o que fará ela com a própria dor?” (Ibid.). Em vez de se fechar no casulo da autocompaixão, “decide falar, decide agir, a exemplo das madres da Plaza de Mayo argentinas”. Elas mantiveram viva a memoria de seus filhos. Denunciando os crimes da ditadura contribuíram para a sua derrubada. “Maryam não conseguiu evitar a execução do seu filho; mas uma vez que aconteceu, pelo menos fará com que ela não seja em vão” (p. 205).

A RESSURREIÇÃO. Neste quesito calha o que se diz das verdades religiosas em geral: quem quer acreditar, não precisa de explicação; quem não quer, não há explicação que o convença. O próprio Catecismo Católico menciona a insuficiência do testemunho histórico com respeito à Ressurreição de J. C. O “Novo Catecismo para Adultos” é mais explícito: “o próprio fato da Ressurreição escapa a qualquer observação empírica. E escapa, por tanto, também à historiografia científica” (p. 211). O teólogo Hans Küng na obra antes mencionada encontra falhas do ponto de vista histórico nas narrativas da Ressurreição (O. c., p. 361). L. Hazleton vai além; as vê como “um histórico mal-entendido o como uma fraude”. É o que acontece, prossegue ela, quando os Evangelhos são vistos “como história e não como teologia; as metáforas perdem a sua grandeza e o supremo mistério fica reduzido a uma medíocre história de detectives (p. 215). “Foi o amor que ressuscitou Jesus” reitera a escritora (p.216). Aliás, foram os amores: o amor maternal de Maryam, o amor sensual de María Magdalena e o amor das outras mulheres” (Ibid.). Foi essa força que tornou dor em alegria, o desespero em esperança e o final infeliz em um princípio feliz.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

A FÉ PARA ADULTOS. O Novo Catecismo. Edições Loyola, São Paulo 1988.

CABESTRETO, Teófilo. Los poemas malditos del obispo Casaldáliga. Desclée de Brouwer 1977, Bilbao 12.

CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. Edições Vozes, Loyola…, 1993.

KÜNG, Hans. On Being a Christian. Doubleday and Company, New York, 1974.

LEMINSKI, Paulo. Jesus a. C. Editora Brasiliense, São Paulo, 2003.

HAZLETON, L. MARÍA, una virgen de carne y hueso. Traducción del inglês: Mary. A Flesh-and-blood Bigraphy of the Virgin Mother. mr Dimensiones, Madrid, 2005.

SARAMAGO, J. O Evangelho Segundo Jesus Cristo. Editora Record, Rio de Janeiro – São Paulo, 1991.

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