QUIA PULVIS ES – QUE ES PÓ

APRESENTAÇÃO

Desta vez dirijo-me diretamente aos luso-parlantes e o tema do mês é a morte. Aliás, morte e vida. No duelo sem trégua entre essas inimigas mortais, parece triunfar a primeira. Mas apenas parece… Afinal poderemos desafiá-la como fez o próprio Jesus Cristo: “Morte, onde está a tua vitória, onde o teu aguilhão?! (1Cor 15, 55).

 

QUIA PULVIS ES – QUE ES PÓ

No ano passado o título do texto foi: Memento homo (lembra homem / ser humano); agora completa-se com: que es pó – frase bíblica retomada pela liturgia da quarta feira de cinzas.

A comemoração dos defuntos no segundo dia de novembro parece convidar à reflexão sobre a vida e fim/finalidade da mesma. No hemisfério norte já é outono e a Natureza se prepara para o recolhimento invernal; no hemisfério sul, pelo contrário, estamos em plena primavera, a caminho para o verão. Podemos ver nisso um convite ao otimismo cristão, como reza o prefácio da missa dos defuntos: vita mutatur, non tollitur (a vida é transformada, não aniquilada). Na missa dominical o católico professa sua fé em Jesus Cristo “… que ressuscitou ao terceiro dia”, e na sua própria ressurreição: “… na ressurreição dos mortos”. Respeitando a fé do cristão, católico ou de qualquer denominação, abordamos agora o tema do ponto de vista “laico” ou simplesmente humano.

A morte, tema incontornável.

A morte tem tantas caras quantas tem a vida, da qual é contrapartida. Elas duas, morte e vida, mais o amor, são os macro-temas da literatura. A dupla morte-vida se digladiam na discussão sobre a “morte assistida” ou eutanásia. Neste contexto surge o tema de “o direito a morrer”, ou morrer com dignidade. O saudoso Rubem Alves vai além: “seria possível planejar a própria morte como uma obra de arte?” – pergunta ele. Muitos nos contentaríamos com menos: morrer com dignidade; ou se não, morrer com elegância. Vem aqui à tona a frase lapidaria de santo Agostinho: tamquam vita, finis ita (qual a vida, assim a morte, o fim).

E, que dizer do humor? Vale a pena lembrar aqui um humorista italiano que, quando soube que a doença que padecia era grave, provavelmente terminal, nem por isso perdeu o humor. Quando chamaram o sacerdote para que lhe administrasse a unção dos enfermos, ao vê-lo entrar com a redoma em mãos, exclamou: “agora sim que estou frito, até o óleo trouxeram”! Não faltam casos semelhantes no nosso Brasil “caboclo”, escasso talvez de letras, mas não de sabedoria. “Vivendo e aprendendo”, dizia a avó Adelina cada vez que as netas, e depois as bisnetas, lhe mostravam as novidades que traziam da cidade grande. Maravilhada e interessada a vó de todos exclamava: “vivendo e aprendendo”! Chegado o dia e o momento derradeiro, os parentes e vizinhos lotaram a casinha da anciã. Quando já começava a definhar, pensaram que estava na hora de colocar uma vela na mão, como era o costume na região. Ao não encontrar o objeto ritual, pensou-se na substituição: um papel enrolado em forma de charuto. Tudo feito com muito carinho e cuidado para não queimar ninguém. A vozinha acompanhou toda a cerimonia e ao apanhar a vela improvisada, veio à tona sua frase favorita, mas “corrigida”: “vivendo e… aliás, morrendo e aprendendo”.

 

O teatro da vida

Ainda humor, ou próxima do mesmo está a ideia de Chaplin sobre a vida: “a vida é um teatro, sem chance de ensaio. Por isso, canta, ri, dança, ama e vive cada momento de tua vida, antes que a cortina caia e a peça, sem aplauso, encerre”. Algo parecido afirma o escritor O. Wilde: “a vida é importante demais para ser levada a sério”.

La vida es sueño

A referência ao sono como metáfora da morte vem de longa data. O próprio Jesus Cristo em duas das três ressurreições que fez, falou do morto como se estivesse apenas dormindo: “nosso amigo Lázaro dorme, mas vou despertá-lo” (Jo 11, 11); “… a menina não morreu; está dormindo” (Mc 5, 39). Para o Filho de Deus a morte, inclusive a dele mesmo, não tinha o selo de “para sempre” que caracteriza a morte de todos nós, mortais.

Para os escritores do Siglo de Oro español é o sonho (não o sono) que é metáfora da vida. Com efeito, é esse o título da famosa peça de Calderón de la Barca: “La vida es sueño”. Compenetrados do cristianismo os escritores dessa época focalizavam a efemeridade da existência, como reza a exortação de Paulo aos cristãos de Corinto: “a figura deste mundo passa” (1Cor 7, 31). Nessa linha de pensamento o acordar está para o sonho como o morrer está para a vida. Vale lembrar aqui que em espanhol o substantivo sueño é biléxico: significa tanto sono como sonho, em português. Na referida peça de Calderón sueño significa literalmente sonho, em português, mas no sentido de irrealidade, sombra, quimera; longe também do inglês dream; mais próximo talvez do “daydreaming”.

Em La vida es sueño todo mundo sonha, do monarca ao útimo plebeu: Sueña el rey que es rey y vive / en este mundo mandando / y el aplauso que recibe (…) en ceniza lo convierte / la muerte (¡desdicha fuerte!) / ¿Qué hay quien intente reinar, / viendo que ha de despertar / en el sueño de la muerte?

Esse discurso é parte do soliloquio do prisionero Segismundo, que encerra a cena II com o questionamento: ¿Qué es la vida? … una ficción… Y todo bien es pequeño; / que toda la vida es sueño, / y los sueños, sueños son.

A saída desse sonho geral advirá na morte, que atingirá por igual o nobre e o plebeu, o rei e o próprio Sigismundo.

 

A morte … igualitária.

A ideia está numa poesia de Mario Benedetti cujo título é: Embarazoso panejírico de la muerte. O poeta uruguaio começa revelando não acreditar no além. Isto o angustia, mas a vida oferece fartos motivos, mais que a própria morte para ficar angustiado. Com efeito, os vexames ou simplesmente as arbitrariedades nos colocam em compartimentos separados. Separam-nos os ódios, as discriminações, as contas bancárias, a cor da pele, etc. A morte, no entanto, coloca-nos todos no mesmo saco: ricos e pobres, súditos e reis, crentes e agnósticos… A morte faz uma justa distribuição do nada; é igualitária e equânime… A morte é eclética, pluralista, social, insubornável. E continuará assim… Pelo menos enquanto não apareça alguém que invente de privatizá- la.

Francisco de Quevedo assinala também essa propriedade da morte, isto é, a sua imparcialidade. É assim que ele mostra no seguinte quarteto:

!Cómo de entre mis manos te resbalas!

!Oh, como te deslizas , edad mía!

¡Qué mudos pasos traes, oh muerte fría!

Que con callado pié todo lo igualas!

 

Conclusão

Quando se aborda o tema religião vem à tona o ditado latino antigo: “Quot capita tot sentintiae” – são tantas as opiniões quantas as cabeças. Ou, em vulgar: cada cabeça é um mundo. Quando o item em pauta é a vida no além, adentra-se num verdadeiro cipoal. Tanto os crentes como os incrédulos podem aduzir razões igualmente “convincentes”. Nem os primeiros nem os segundos são capazes de explicar a sua fé ou a falta dela. A grande maioria dos que celebramos o dia de defuntos aderimos à fé cristã. Ela não nos libera da dor quando algum dos nossos familiares ou amigos parte. Então a nossa dor é temperada pela esperança cristã; ou por um amor “mais forte que a morte”, como lemos no soneto de Quevedo, transcrito a seguir. Nele podemos ver uma resposta à sentença, título deste escrito: …es pó. “Sou, sim; mas pó enamorado”.

 

“Amor constante más allá de la muerte”,

 

Cerrar podrá mis ojos la postrera

Sombra que me llevare el blanco día,

Y podrá desatar esta alma mía

Hora a su afán ansioso lisonjera;

 

 

Mas no, de esotra parte, en la ribera

Dejará la memoria, en donde ardía:

Nadar sabe mi llama el agua fría,

Y perder el respeto a ley severa.

 

“Alma a quien todo un dios prisión ha sido,

Venas que humor a tanto fuego han dado,

Medulas que han gloriosamente ardido:

 

Su cuerpo dejará no su cuidado;

Serán ceniza, mas tendrá sentido;

Polvo serán, mas polvo enamorado”.

 

(Francisco de Quevedo – 1580 – 1645).

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Um comentário sobre “QUIA PULVIS ES – QUE ES PÓ

  1. Ho molto apprezzato, in questo scritto, i vari aspetti sotto i quali si parla della morte, specie quello umoristico. Sono convinta che la vita prevalga sempre sulla morte.rla Vorrei portare una testimonianza tratta da un libro il cui titolo è “Appunti per un naufragio”. E’ stato scritto da Davide Enia, uno scrittore palermitano. Una piccola premessa: il naufragio di cui si parla nel titolo avvenne il 3 ottobre 2013 di fronte alla costa dell’isola di Lampedusa. Un peschereccio con oltre cinquecento migranti eritrei, per un banale incidente, affondò causando trecentosessantotto morti, tra cui molti bambini, Circa 250 vittime erano chiuse nella stiva del relitto. Infatti i trafficanti libici fanno scendere lì i migranti che non hanno tutto il denaro richiesto per pagare la traversata. Pochi sopravvivono alla mancanza d’aria e se il natante imbarca acqua, sono i primi a morire. Ecco, però, che cosa dice all’autore un testimone, il sommozzatore Simone, dopo essersi immerso proprio in quel fondale a distanza di qualche anno: “Sul relitto adagiato sul fondo del mare, adesso ci sono i coralli, ci sono le alghe, ci sono i pesci che ci girano intorno. La prima volta c’erano soltanto i cadaveri, oggi invece il mare ha trasformato tutto. Ho visto un superamento della morte. Un ritorno della vita, ecco” .

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