BRASIL, MOSAICO RACIAL LATINOAMERICANO

APRESENTAÇÃO                 

Mais um tema latino-americano. Em foco: o Brasil. Neste espaço se diz algo do muito que poderia ser dito sobre o mesmo assunto. Remito à bibliografia, principalmente às duas obras mais recentes.

BRASIL, MOSAICO RACIAL LATINOAMERICANO

Se América Latina é chamada “terra de encontros”, o título calha principalmente ao Brasil. O mexicano José Vasconcelos assinala esta nação como o berço da “Raza Cósmica”, a raça definitiva que virá da fusão da raça negra com a branca, exibindo o melhor de cada uma. Numa visita recente à Bahia deparei-me com “outro Brasil”, diferente do “Brasil branco” dos estados do sul. Os brasileiros de origem europeia podem aduzir diferentes razões que podem ter induzido seus ancestrais a imigrarem ao Brasil; os de origem africana podem apresentar só uma: a escravidão. A eles, cuja presença é maciça no estado de Bahía, dedica-se este texto. A história deles, que bem poderia chamar-se “Holocausto Negro” deve ser contada e recontada para no cair no esquecimento.

Apresenta-se a seguir um olhar sobre alguns aspectos da escravidão dos afro-brasileiros: porque nas outras nações latino-americanas foram menos? Aborda-se a captura e a viagem da Africa à America, o trabalho no solo brasileiro e por fim o legado da raça negra a Brasil e ao  mundo.

As cores da escravidão

Eram os indígenas maus escravos e por isso foram trazidos os negros? Não é bem assim. Afinal, “nenhum povo é bom escravo” (Schwarcz et Al. 2018: 23). Talvez seja mais lógico supor que o número relativamente pequeno de índios na Colonia portuguesa (Br) era menor que nas Colonias hispânicas; daí a introdução massiva de escravos africanos.

Com a ressalva antes apontada pode-se dizer que a escravidão dos africanos foi pior que a dos índios, começando pela captura e a viagem transatlântica da Africa às Américas. No livro Negras Raízes ((Alex Haley) capítulo 31, págs. 127ss narra-se a violência extrema dos caçadores brancos auxiliados por negros. Kunta Kinté resiste com toda a força de um jovem são e consciente do que está em jogo. Mas o fator surpresa e a superioridade numérica dos captores (3 vs 1) acabam prevalecendo. Pode-se compreender porque esse é um dos momentos em que a morte acontecia. O segundo lance em que um número considerável perdia a vida era durante a viagem. O Livro negro da colonização (Bibliografia), a pág. 127 oferece um relatório em que o cirurgião Falconbridge narra sua experiência a bordo de um navio negreiro durante uma tempestade de vários dias que impediu a saída dos cativos até a ponte per arejar-se. Conclui:

é impossível a mente humana imaginar um quadro mais horrível e mais repugnante do que o estado em que esses seres miseráveis se encontravam então. Grande número de escravos havia desmaiado; eles foram levados até a segunda ponte, onde vários morreram, e foi bastante difícil fazer despertarem os outros. Pouco faltou para que eu me incluísse entre as vítimas”.

Cenas desse tipo são narradas no livro de A. Haley bem como imagens apresentadas no DVD baseado no mesmo e no filme Amizdat de Spilberg.

O número de cativos em cada viagem era em media de 659. As viagens em mais de três séculos que durou esse “comercio” são estimadas em 36 mil. Os que foram entregues no Brasil somaram 4.8 milhões de escravos. Os portos de chegada eram principalmente Salvador e Rio de Janeiro. Os autores do Dicionário (Schwarcz et Al.) assinalam o lugar nada honroso que o Brasil conquistou no tráfico de seres humanos na época. O tráfico transatlântico de escravos africanos tomou no Brasil uma dimensão inédita no Novo Mundo. Do s. XVI até 1850, no período colonial e no imperial o país foi o maior importador de escravos africanos nas Américas (pág. 7).

A continuação do tráfico mesmo após a proibição, portanto ilegal, explica porque o Brasil foi o último país a abolir a escravatura. O tráfico clandestino (1851-56), segundo o mesmo pesquisador, gerou fortunas no Brasil e no Portugal.

Alocação

Os centros de trabalho aonde os escravos eram levados, após serem desembarcados e leiloados, eram onde se produziam os bens que logo eram enviados a Europa. Um dos primeiros centros de produção, e portanto, de trabalho escravo, eram os canaviais; centros importantes: Pernambuco e Bahia. Criou-se com efeito uma sociedade agridoce: a doçura do açúcar misturou-se com o ardor do trabalho compulsório e escravo (Schwarcz, o. c. p. 23). O trabalho nos canaviais supõe o engenho e a múltipla atividade nele: moenda, preparo e empacotamento do produto para exportação às metrópoles europeias.

A descoberta de minérios, principalmente ouro, no s. XVIII atraiu um número considerável de escravos. Este período aproxima a escravidão lusa daquela hispânica. Nesta, porém, os escravos ou semiescravos eram os índios. A notícia do ouro levou a uma verdadeira corrida rumo à região central do Brasil. Era o começo da sociedade mineradora, que gerou uma sociedade complexa e aumentou a distribuição de escravos no território (Id, Ibid, p. 23).

Posteriormente, s. XIX, começou a época do café. A importância deste novo produto de exportação acarretará uma mudança na ideia do trabalho escravo. O Sureste passará a ser o coração econômico, cultural e social do Brasil oitocentista e se manterá umbilicalmente ligado á lógica escravista cafeteira (Id., Ibid, p. 25) Cabe assinalar também a escravidão urbana. Os “escravos domésticos” não foram tantos como nas metrópoles do império greco-romano; foram, porém, de grande importância.

 As cidades escravistas talvez sejam as formatações mais originais do Brasil. Elas ajudaram a gerar cenários urbanos singulares nos quais as línguas, vestimentas, cheiros, odores, sabores e símbolos étnicos foram sendo importados, criados e recriados (Schwarcz, o. c., p. 26). Dentre essas cidades estão: Salvador (Capital até 1763), Recife, São Luis, Belem e Porto Alegre.

A chegada da Corte portuguesa ao Brasil (1808) fez com que se procurassem novos produtos para consumo e exportação. Um deles, já existente mas que ganhou um novo impulso, foi o café. O cultivo do mesmo e o processamento até momento da exportação partindo do Rio de Janeiro, suponha muito trabalho, vale dizer, aumento do trabalho escravo. Começara já a serem usadas diversas máquinas, mas contando sempre com o trabalho humano, vale dizer, escravo.

Na segunda metade do s. XIX o “ouro negro” chegou a ser o mais importante dos produtos exportados: 61.7%. A produção era realizada em sua totalidade pelo trabalho escravo. Compreende-se, portanto, o baque causado com a abolição da escravatura (1888). A principal riqueza que tinham muitos fazendeiros eram os escravos, “bens mutantes”. As terras, após vários anos consecutivos do café, ficaram improdutivas para qualquer outro cultivo imediato.  Assim, a abolição quase que repentina e sem alguma indenização levou os proprietários à ruina. Daí a desilusão com a monarquia e a adesão à República (1889).

O Legado do Povo Negro

Esperar cantos, esperar música, dança… do povo escravizado? Nem pensar! Deciam os judeus exilados em Babilônia quando seus captores pediam que cantassem os cantos de Sion (Ps 137). Já os escravos africanos e seus descendentes cantavam nas senzalas, nos locais de trabalho…nas festas religiosas e nos eventos sociais, até mesmo naqueles organizados pelos senhores. (Schwarcz, o. cc., p. 130). Não só música, pois sem o acompanhamento da dança, música, para eles, perderia a graça.

Assim, geralmente (as canções) eram identificadas pela variada marcação do ritmo (com tambores e palmas), pelos estilos performáticos em dança de roda e pela poesia em forma de desafio (pergunta e resposta), de paródia e de humor” (Id., Ibid.).

O visitante que vem das nações colonizadas por Espanha adverte logo que no Brasil há uma produção musical que inexiste nas nações vizinhas. Salvo melhor opinião, a MPB (música popular brasileira) não seria a mesma sem a presença da música afro-brasileira. Cabe aos entendidos pesquisar o universo musical brasileiro comparando-o, por exemplo, com os cantos dos negros de Estados Unidos. Talvez também com o jaz. Uma coincidência que qualquer leigo percebe é o acompanhamento como que iniludível da dança. De modo geral pode também afirmar-se que a música negra do Brasil é mais alegre, mais lúdica; ao passo que a contraparte de EE. UU. parece mais nostálgica.

No universo dos esportes é preponderante o papel desempenhado pelos netos e bisnetos dos escravos africanos.  O esporte mundial, principalmente o futebol, ficaria estagnado se de repente os jogadores de origem africana, em bloque, decidissem fazer greve. A hibridação nos diversos campos – musical, alimentício, linguístico, etc.- começa a ser estudada.

Conclusão

Os donos de escravos, obrigados, sem qualquer indenização, pela Lei Aurea a dar-lhes a liberdade, se sentiram injustiçados. O que dizer, então, dos liberados que ficaram apenas com sua liberdade, e mais nada? Além disso, carregarão os estigma de exescravos indefinidamente. Os exescravos do Império Greco-romano, tornando-se livres, conviviam com a população em nível de igualdade. O exescravo de origem africana, não. A escravidão termina, mas a discriminação, não.

A prática acha teorias para se justificar. Aplicando à raça os princípios do darwinismo existentes na época, falou-se de um “darwinismo racial”. “O saber sobre as raças levou, por sua vez a um ideal político que previa a submissão ou eliminação das raças inferiores: a eugenia” (Schwarccz, o. c., p. 406). A Inglaterra ofereceu em época recente uma aplicação dessa teoria. W. Churchil explica: eu não acho nada errado no que foi feito aos povos originários de Estados Unidos e de Australia: o fato de uma raça mais forte, uma raça de melhor qualidade chegar e ocupar o lugar daqueles (Galeano, 2012: 38). Trocando em miúdos, o estadista inglês justifica sem mais nem menos, a eliminação dos mais fracos pelos mais fortes.

 Em suma, quando o sonho da igualdade parecia tornar-se realidade com a abolição da escravidão, agora era a ciência, a biologia que “determinava de maneira categórica, que os homens não nasciam iguais” (Schwarcz, o. c., p. 408). Vulgo: a liberdade é negra, mas a igualdade é branca. Olhando para o nível sócio-económico que os descendentes dos africanos ocupam no Brasil, pode-se afirmar que os 130 anos pós-abolição, não apagaram ainda as marcas da escravatura. Quantos serão ainda necessários?…

escravidão

Anuncio de jornal – Johan Muritz

 

Bibliografia

FERRO, MARC (Org). O livro negro do colonialismo. Ediouro, Rio de Janeiro, 2004.

GALEANO, EDUARDO. Los hijos de los días. Siglo XXI, Argentina, 2012.

HALEY, ALEX. Negras Raízes – A Saga de uma família, Record, São Paulo, 1976.

SCHWARCS, L. e GOMES, F. (Orgs.), Dicionário da escravidão e liberdade. Companhia das Letras, São Paulo 2018.

VASCONCELOS, JOSE. La raza cósmica. ESPASA-CALPE, México, 1992.

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AMERINDIA

PRESENTACIÓN

El presente texto trata la llegada de los europeos a Nuestra América – INDOAMÉRICA. Con ellos llegaba una nueva religión. Siendo ésta “la verdadera”, se impuso con la misma violencia que la ocupación militar. Han llegado la cruz y la espada. O más propiamente: ¿la espada y la cruz?…

 

AMERINDIA

Ahora dirigimos la atención hacia los habitantes de estas tierras, descubiertas por ellos siglos o quizá milenios antes de 1492. Puesto que Cristóbal Colón, jefe de la expedición europea suponía que habían llegado a la India, sus habitantes tenían que ser indios, como los de España son españoles, los de Italia italianos y así sucesivamente. Con ello “el Almirante genovés da origen a un error lingüístico que se ha perpetuado por los siglos y que, con toda ironía histórica vino a convertirse –retroactivamente – en profecía” (Arizpe, 1986: 333). Aun después de aclarado el equívoco, que se constató que las tierras “descubiertas” no eran del Oriente, no eran la India, se quedaron por aquel entonces con el nombre de Indias Occidentales.

Sorpresas y decepciones

Era aquélla la época de los grandes viajes, de las navegaciones interoceánicas. Por consiguiente las razas negra y amarilla eran ya conocidas, pero no la de estas tierras. De ahí la sorpresa de los recién llegados.

Es difícil imaginar el espanto y el deslumbramiento que provocó para ambas partes el encuentro. Los habitantes americanas, por su parte, pensaron en un principio que hombre, caballo y armadura constituían un solo ser y también se maravillaron de los artefactos que escupían bolas de piedra y hacían llover fuego (Uribe, 1986: 33).

La sorpresa fue recíproca, aunque no en el mismo sentido ni con el mismo alcance. Los hombres blancos, barbudos y cubiertos de metal que llegaban del Oriente fueron recibidos como dioses. Hernán Cortés, el conquistador de Tenochtitlan, actual Ciudad de México, era, para Moctesuma y su corte,  Quetzalcoatl que había desaparecido navegando en aquella dirección, y ahora regresaba. Los acompañantes del conquistador español serían divinidades subalternas. Uno de ellos, pelirrojo sería “Tonatiuh”, el sol, y así sucesivamente.

Valiéndose de esa exaltación y fomentando las desavenencias entre los aztecas y las razas indígenas dominados por ellos, el Conquistador pudo apoderarse del imperio náhuatl con un puñado de soldados y con pérdidas insignificantes.

Lo curioso, y lo monstruoso, fue que los europeos, lejos de rechazar las atribuciones divinas, las aceptaran y se aprovecharan de las mismas. ¿Qué habría ocurrido si Cortés y su gente hubieran reaccionado como Pablo y Bernabé cuando los habitantes de Iconio los identificaron como los dioses Zeus y Hermes? (Hechos de los Apóstoles 14, 11-16).

Colonización y evangelización

La colonización de Iberoamérica adujo, a diferencia de la efectuada por los colonos ingleses, como justificativa principal, la evangelización. Por lo que se refiere a Hernán Cortés, conquistador del imperio azteca (hoy México), además de su osadía y valor y la colaboración de los indios sus aliados, contó con el apoyo de un tercer aliado: la religión. El Cristianismo que en el siglo I había llegado a Roma, capital del Imperio, era el del Crucificado. Muerto en plena juventud (Matado, como muchos – Casaldáliga), resucitó, resucitaba en los que eran bautizados, por lo general adultos y tras una seria catequización. En el siglo IV la  religión del Crucificado conquistó al mismo Emperador y con él, el poder, el ritualismo, el reconocimiento; en fin, adquirió dignidades, jerarquía y dogmas. Fue dotado de armas muy diferentes de las usadas por su Fundador.

Era ese el Cristianismo que llegaba al Nuevo Mundo en las Carabelas de Colón. Para colmo, venía con otro poderoso instrumento: la bula Inter coetera por la que el papá Alejandro VI  (español) hacía donación al rey de España de aquellas tierras con todo lo que en ellas hallara. En efecto, esa cláusula constará en el “Requerimiento” que los españoles deben hacer conocer a la comunidad a donde llegan. Al oír semejante despropósito mediante la traducción del intérprete, los caciques del Río Sinu, admiraban irónicamente la “generosidad” del Santo Papa que donaba lo que no era suyo. ¿Estaría quizá borro cuando lo hacía? El rey de Castilla era un atrevido, amenazando a quien ni siquiera conocía.

Alegato sobre la naturaleza del indio

La evangelización de los habitantes del “Nuevo Mundo” dependía de la respuesta al planteamiento previo: ¿es el indio ser humano? Los europeos que llegaban en 1492 y los que les siguieron, al principio admiraban a los nativos, seres sin malicia, desprendidos de todo lo suyo, si es que lo consideraban tal y pacíficos en grado sumo, pues ni siquiera poseían instrumentos de metal. Pero no tardaron en cambiar de opinión, no sin segundas intenciones. Pronto empezaron a criticar sus costumbres, su idolatría, falta total de indumento (andaban desnudos, ellos y ellas), etc. De ahí a negar la naturaleza humana de los recién “descubiertos”, a apoderarse de sus bienes, de sus tierras y hasta de sus personas, la distancia era corta. Nótese cómo ya desde su llegada a la primera isla de la Bahamas, en vez de preguntar cómo se llamaba, Colón simplemente la llamó “San Salvador”. Ese eurocentrismo, se encuentra en la misma palabra “descubrimiento”. Encontrándose ya en tierra firme  y caminando hacia el oeste, Vasco Núñez de Balboa divisó desde una cumbre de Panamá el otro océano. Según la historia oficial, lo “descubrió”. “Los habitantes de aquellas tierras, ¿eran ciegos?” – pregunta E. Galeano (2008: 120). Ese “descubrir” y “nombrar” de los Conquistadores remite al Génesis (2, 19-21) cuando Dios pone a Adán frente a toda la creación, y el primer hombre empieza nombrando a cada uno de los seres recién creados, que pasan, ipso facto, a ser suyos.

La discusión en torno a la racionalidad o irracionalidad de los nativos se dividió en dos bandos: aquellos que defendían su humanidad y exigían el trato correspondiente y los que la negaban, o la admitían a medias – tenían aptitudes, si no físicas, sí intelectuales inferiores a los europeos. Encabezaban los bandos el dominico Fray Bartolomé de las Casas y Ginés de Sepúlveda, respectivamente (Camorlinga Alcaraz, 1993). Gracias, principalmente al primero, la cuestión se resolvió doctrinal o teóricamente, en favor de la humanidad de los indígenas. Así lo determinó el papa Paulo III en la bula Sublimis Deus (1537). En la práctica, sin embargo, continuó la explotación, la apropiación de sus tierras y el sometimiento de sus habitantes a una esclavitud de facto. Las distancias, el aislamiento y la dificultad en la comunicación hacía prácticamente imposible la fiscalización. Los “encomenderos”, semejantes a los hacendados de época posterior, ignoraban las leyes o las tergiversaban cuando y como les convenía.

La dos actitudes mencionadas reflejan también el sesgo en lo referente a la conversión de los nativos: convencimiento lento, catequesis, alejamiento gradual de los ídolos y de la idolatría y solo al final de ese largo proceso se administraría el bautismo y se empezaría una vida cristiana realmente adulta, por un lado; por otro, arrebato y destrucción de los ídolos, instrucción superficial y obligatoria, incentivos y amenazas … y administración del bautismo. Los efectos de semejante actitud se pueden ver en el testimonio de una anciano náhuatl, conservado en un manuscrito de 1531 y traído a la luz por el estudioso del tema León Portilla: … y ahora les hago presesnte / que para que no nos maten / es mi voluntad / que todos nos bauticemos / y adoremos al nuevo Dios (Arizpe, L.., op. Cit., p. 336).

Escenas de la época colonial

Una Virgen Mexicana.

Es morena, como la de Extremadura (España) pero tiene facciones y porte mexicanos; es la Virgen de Guadalupe. Supuestamente se apreció en el Cerro del Tepeyac, exactamente donde estaba el templo de Tonatzin, diosa madre de los aztecas. Al ver su figura y oír el mensaje enternecedor que dirige a los indios, representados por el indio Juan Diego, el vidente, los naturales acudieron en masa a bautizarse. ¿Era realmente María la Madre de Jesús, o veían en ella a la diosa Tonatzin? No se lo planteaban. “En México, como en toda América, los dioses prohibidos se habían metido en las divinidades católicas por los caminos del aire, y en sus cuerpos residen” (Galeano, 2012: 390).

La autenticidad de las apariciones ha sido cuestionada por historiadores serios. Uno de los últimos abades de la Basílica puso las apariciones en tela de juicio, sin negar la importancia que la Virgen tiene en México, ni comprometer su culto. Pagó con la pérdida de su cargo la honradez intelectual. La administración de la Basílica, verdadera mina de oro, pasó a manos de la archidiócesis.

La Inquisición en el Nuevo Mundo.

Fue en 1571 cuando el Inquisidor General, proveniente de Madrid, llegó a la Capital de la Nueva España (México). Él, junto con el Virrey y el Arzobispo, son los depositarios del poder del Rey en cuyo nombre lo ejercen en estas tierras. Se controlan entre sí y deben informar a la Metrópoli cualquier desvío de la línea trazada por España. Se comprende, pues, por qué se le recibe a bombo y platillo. Acto seguido se publica el edicto que manda: delatarás al prójimo. Deben delatar lo que supieren o hubieren visto u oído, sin importar que sean mujer y marido, padre e hijo…, no importan lazos de parentesco, afinidad o amistad.

Poco después, en 1574, tuvo lugar el primer acto de fe. Los espectadores eran numerosos, “tantos que jamás se había visto semejante multitud”, según describía el mismo Virrey que asistía al espectáculo (Galeano, 1982, I: 171). Los reos eran esperpentos, lo que había sobrado de los seres humanos sacados de las celdas y cámaras de tortura. Los crímenes: haber dicho que la fornicación no es pecado mortal, que era mejor estar amancebado que casado y otras inmoralidades semejantes. Las penas son: desde los azotes y las galeras…, hasta ser quemado en la hoguera por herejía.

Otro crimen que merecía la mayor pena, la hoguera, era el sacrilegio. Fue ese el cometido en Haití por seis hombres que habían hundido en la tierra las imágenes de Cristo y de María que el fraile misionero les había dejado para que las invocaran en peligros o apuros. Los seis “sacrílegos” son quemados vivos por castigo a los mismos y escarmiento para los demás. Desafortunadamente nadie les había preguntado por qué habían perpetrado aquel delito de enterrar las imágenes sacras. Ellos habrían explicado que las enterraron para que fecundaran la tierra, la misma donde habían plantado maíz, frijol, camotes… (Id., Ibid., p. 60).

Los niños mártires mexicanos.

Tres niños en el México colonial cumplían con la proclama del edicto: delatar… hasta a los propios padres. La denuncia se volvía más grave cuando se trataba de idolatría. Fue lo que ocurrió con una familia mexicana. Los niños denunciaron a sus padres: practicaban a escondidas la idolatría. Los idólatras fueron quemados vivos por la Inquisición. Pero la comunidad castigó a los “traidores” con la pena capital. Para la Iglesia esos niños fueron verdaderos mártires. Así, el 6.5.1990 el papá Juan Paulo II en una de sus frecuentes visitas a México los declaró “beatos” (Camorlinga A., 1993: 98). Estamos ante tres hechos: la delación de los niños con sus terribles consecuencias, el castigo de la comunidad a los delatores y la exaltación, por parte de la Iglesia, de los niños delatores. ¿Santos? …

 

Choque cultural y sus consecuencias

 

El triunfo de las armas fue total. Así lo sería el de la cruz. Derribar ídolos, quemar manuscritos, destruir todo vestigio de la religión y cultura podía hacerse a mansalva. Eso hacía el obispo Zumárraga en Tenochtitlan y el franciscano Fray Diego de Landa en Yucatán, tierra de los Maya, hacia mediados del s. XVI (Prien, 1985: 70). Es pues de admirar que en 2009 los Franciscanos en el atrio de su convento en Yucatán llevaron a cabo un acto de desagravio a la cultura indígena. Pidieron perdón al pueblo maya

por no haber entendido su cosmovisión, su religión, por negar sus divinidades; por no haber respetado su cultura, por haberle impuesto durante muchos siglos una religión que no entendían, por haber satanizado sus prácticas religiosas y por haber dicho y escrito que eran obra del demonio y que sus ídolos eran el mismo Satanás materializado (Galeano, 2012: 127).

 

Ese pedido de perdón viene con cuatro siglos y medio de atraso. Aun así se puede decir: más vale tarde que nunca. Nótese que entre los actos incluidos en la lista está: ”no haber respetado su cultura”. En realidad la mentalidad ibérica de la época traía cultura y religión en el mismo “paquete”. Así el triunfo de las armas suponía el de la religión: la cruz y la espada. Quizá al contrario: la espada y la cruz. “Así como los cristianos ibéricos no pudieron distinguir entre evangelio y cultura, uno y otra también tuvieron que aparecer como unidad a los indios. La Iglesia apareció como un instrumento de los conquistadores brutales” (Prien: 1985, 72).

 

A pesar de haber existido figuras excepcionales como Fray Bartolomé de las Casas, prevaleció el “mesianismo ibérico”, sintetizado en la máxima de Cortés: acabar con el alma del indio. El indio ha sido el gran derrotado; y sigue siéndolo aun después de la independencia de las diferentes naciones del Continente. Si el pedido de perdón de los Franciscanos cundiera, son numerosas las instituciones religiosas y políticas que deberían pedir perdón, sin omitir el propósito de la enmienda…

 

blog 

ARIZPE, Lourdes, El Indio: mito, profecía, prisión. In: América Latina en sus ideas, Siglo XXI –            UNESCO, México 1986.

CAMORLINGA A. José María. DOS RELIGIONES: Azteca – Cristiana. Plaza y Valdez, México 1993.

GALEANO, Eduardo, Memonrias del fuego I, Los nacimientos, Siglo XXI, México 1986.

GALEANO, Eduardo, Espejos. Siglo XXI, Argentina, México, España, 2008.

GALEANO, Eduardo, Los hijos de los días, Siglo XXI, Argentina 2012.

PRIEN Hans-Jürgen, La historia del Cristianismo en América Latina. Editora Sígueme, Salamanca (España), 1985.

URIBE, J. Jaime, Frecuencias temáticas de la Historiografía Latinoamericana, In: América Latina     en sus ideas, Sglo XXI – UNESCO, México 1986.

 

AMÉRICA LATINA, UNA Y MÚLTIPLE

 

PRESENTACIÓN

AMÉRICA LATINA, o alusiones a la misma, se encuentran en algunos textos del Blog. Ahora se enfoca directamente ese Continente cuya realidad parece no caber en el ámbito de un solo calificativo. Quizá eso quiera decir que aún no sido plenamente  descubierto.

 

AMÉRICA LATINA, UNA Y MÚLTIPLE

Un periodista estadunidense tuvo la ocurrencia de verificar los conocimientos generales de sus compatriotas en lo referente a las naciones de nuestro Continente. Una de las preguntas era: ¿qué lengua se habla en América Latina? – “Latín, por supuesto”, fue la respuesta. Si se realizara una encuesta semejante a esa dentro de Latinoamérica quizá los resultados no fueran mucho mejores. Se sabe más sobre los pueblos de Europa o sobre Estados Unidos que sobre los vecinos. El presente escrito ofrece algunos datos sobre Nuestra América; es una información al alcance del lector curioso dondequiera que se encuentre.

América Latina, ¿existe?

¿Existe una América Latina? – se pregunta Darcy Ribeiro (“América Latina, a Patria Grande”). Claro que sí, responde él mismo. Borges, en cambio, niega que exista una tal América. “Yo no creo que América Latina exista”, dice textualmente. “Hablar de AL es una generalización que no corresponde a la realidad” (Diccionario BORGES, pág. 18). Enseguida explica que individualmente cada persona se considera peruano, argentino, chileno, etc., “pero no latinoamericano”. El mismo peso les da a los términos Hispano-américa e Hispano-americano.En cambio, Julio Cortázar, también argentino y también escritor, “se siente latinoamericano”. Dice sentirse en casa en cualesquiera de las naciones de “Nuestra América”, no obstante las diferencias entre ellas. Dicha unidad no es superficial, puramente de intelectuales, políticos o economistas. “Yo creo que es algo que tiene que ver con lo telúrico, con la desmesura geográfica, con la historia común: la conquista, la independencia” (Entrevista, Cambio 16, 14.04.81).

Detengámonos en Latina, en “lo latino”. El vocablo remite a Latium o Lacio, territorio de la península itálica en que se encuentra Roma. Curiosamente, los habitantes de esa ciudad-estado, posteriormente ciudad-nación, pasaron a llamarse Romanos y no Latinos. Este término se reservó a la lengua que, juntamente con la cultura, era trasmitida a los pueblos conquistados y colonizados. “A los soldados seguían los juristas, los ingenieros, los agrónomos” (Duby 1989: 12). En las colonias empezaron a resonar las palabras en sentencias breves y directas: libertas, potestas, auctoritas, imperium, Res publica … (Id., Ibid.). Fue la lengua uno de los elementos que dieron cohesión al imperio. “Se fundó sobre una lengua, la de los mandamientos militares, la de los decretos de justicia, la de las liturgias del poder; la lengua del viejo país latino” (Ibid.).

A miles de kilómetros y varios siglos de distancia los hablantes de un dialecto derivado del latín traían esa lengua al Nuevo Mundo. “Qué buen idioma es el mío”, dirá Pablo Neruda. En general es el conquistado quien tiene que comprender y luego usar la lengua del conquistador. Esa imposición inicial acaba convirtiéndose en ventaja para el primero: éste hace suya también la lengua del dominador, mientras éste permanece en su monolingüismo. Un cantante chileno se enorgullecía de haberse vengado de los españoles robándoles  la guitarra. Algo análogo dice Neruda con respecto a la lengua: “salimos perdiendo…, salimos ganando… Se llevaron el oro y nos dejaron el oro… Se lo llevaron todo… Nos dejaron todo. Nos dejaron las palabras” (Confieso que he vivido).

Las palabras, la lengua que nos dejaron los Conquistadores, los Evangelizadores y a la postre los Maestros, era una variante del latín, y junto con la lengua vino el apelativo “de pueblos latinos” a los hablantes de la misma. Esto vale tanto para los españoles y los pueblos colonizados por España como para los portugueses y sus colonias. Entre ellos floreció “La última Flor de Lacio”, como llama Camões al portugués. No es raro oír que una de esas lenguas no es sino deformación de la otra, según sea un hispano o un luso-parlante quien lo dice. A quienes así piensen, se les aconseja aproximarse a una de estas lenguas a partir de la otra totalmente “desarmado”. Constatará que esa otra lengua, latina como la suya, es, no obstante, “una nueva ventana al paisaje del ser” (Steiner G.). Dígase de paso que, al emigrar de Europa a América, ambas lenguas mudaron su perfil, enriqueciendo y embelleciendo la respectiva matriz, aunque sin deformarla.

Julio Cortázar (Entrevista…), señala “la unidad idiomática como uno de los lazos que une a los latinoamericanos. “Claro, está el Brasil ahí. Pero, así como en Portugal yo no entiendo una palabra, en São Paulo y en Río de Janeiro entiendo todo perfectamente”. Ahora podemos apreciar la carga ideológica contenida en noticiarios que a veces se leen o se escuchan por la televisión brasileña: “fueron capturados cinco asaltantes, dos de ellos eran brasileños, los otros, latinos”. Al oír semejante despropósito algunos brasileños se preguntan: ¿entonces nosotros qué somos? ¿qué es Brasil?…

¿Una o dos Américas?

Otro equívoco que conviene aclarar es el relativo al uso de América yamericano. Cuando regresamos de un viaje al extranjero, al pasar por migración, por un corredor van los brasileños – para brasileiros;  por otro, los de otras nacionalidades. En Estados Unidos, el corredor y la ventanilla para ellos dice que es “sólo para los Americanos” (American only). O sea, para los ciudadanos de esa nación. Ellos son los americanos. Y los demás, ¿qué somos?

La respuesta a estos planteamientos se encuentra en la carta que un canadiense le envió al diario El País, de España (3. 6. 96). El lector se pregunta si la “Ciberamérica” no se habrá apoderado de la mente del articulista, que escribe reiteradamente América y americano referidos exclusivamente a EE. UU. Su reacción: “!NO! ¡Todavía no! ¡USA no representa América! ¡América no es USA!”. A continuación explica lo que realmente es América: “numerosos países con sus lenguas, su cultura, su historia. América es todo lo contrario de lo que erróneamente se califica de “americano”. ¿Que USA ya lo tienen todo, son todo? Quizá. Pero no tienen la fe, esperanza y amor que tienen el resto de los pueblos de América”. El indignado lector termina llamándonos la atención para que “no nos dejemos engañar por USA y por los Usenses, no toleremos ser USAdos”.

Un poco de geografía

Para terminar, veamos cómo andan los conocimientos geográficos de nuestros compatriotas latinoamericanos del Brasil. Si eres un hispano-parlante, por muy bien que te expreses en “brasileño” siempre notarán tu acento extranjero. Viene luego la pregunta: ¿eres argentino, uruguayo…? Algunos supondrán que entonces debes ser de Paraguay, Bolivia… ¿No?. Entonces de España. Si les dices que eres de la primera nación latinoamericana del norte, aun así muy pocos llegarán hasta México. Surge entonces la pregunta: qué lugar ocupa México en el mapa del Continente. Generalmente se identifica el grande bloque del sur como Sudamérica; se tiene una vaga idea de las naciones de Centroamérica entre las cuales se suele incluir a México, y el otro grande bloque del norte es Norteamérica. Cuando aclaras que México está en el norte, apenas si lo creen. ¿Es entonces Estados Unidos?

Vamos por partes. Admitida la existencia de las dos “Grandes Américas”, la del norte (Norteamérica) y la del sur (Sudamérica), se tiene que admitir la franja que las une, la América Central, “la Pequeña América” cantada por Neruda en su poema con ese título. Ahora bien, la primera nación de Norteamérica, al norte de América Central, es México que, geográficamente está en Norteamérica. Pero, lingüística y culturalmente es Latinoamérica, Nuestra “América”,“La Patria Grande” de Darcy Ribeiro, patria que va del Río Grande hasta la Tierra del Fuego. Grande de veras: 20 millones de Km2; grande: 500 millones de habitantes, número en continuo crecimiento. Su grandeza se ha visto en su generosidad al acoger a millones de hombres y mujeres en busca de asilo. Aun actualmente en Brasil han encontrado casa numerosos haitianos y un grupo considerable de sirios. Si la elasticidad de sus fronteras el limitada, la de su corazón, no. Y eso basta.

Termina aquí este esbozo, con la promesa de continuar, diciendo algo más de lo mucho que aún queda por decir sobre la América Latina – AL, tierra de encuentros: de razas y de lenguas, AL y su cultura, su literatura, su arte…

mapa am.latina 

Referencias bibliográficas   

CORTÁZAR, Julio, Entrevista. Cambio 13.04.1981.

DUBY, Georges (Org.), A Civilização Latina. Publicações Dom Quixote, Lisboa 1989.

NERUDA, Pablo, Confieso que he vivido. 1974.

RIBEIRO, Darcy, América Latina a Patria Grande. Edições Guanabara, Rio de Janeiro, 1986.

LA IGLESIA FRENTE A LOS PROBLEMAS DE MÉRICA LATINA

 

PRESENTACIÓN

El texto es una especie de continuación del anterior. Los retos encontrados acá por la Iglesia latinoamericana originaron una “nueva teología”, vista con recelo y a la postre proscrita por la cúpula eclesiástica.

 

LA IGLESIA FRENTE A LOS PROBLEMAS DE MÉRICA LATINA

 

Proletarios – Campesinos

Mientras en Europa se vivía una época que podemos llamar “poscristiana”, las ex colonias ibéricas estaban en una situación más afín al feudalismo. Los retos que enfrentaba la Iglesia Latinoamericana eran muy diferentes de los enfrentados por la Iglesia europea. En vez de fábricas, acá había haciendas (estancias), en vez de los empresarios, los hacendados. Allá la explotación de los proletarios, acá la semi-esclavitud de los campesinos. Las guerras de independencia no habían cambiado sustancialmente el status de la población, compuesta por indios, mestizos, negros y mulatos (Brasil). Se hizo necesario un nuevo levantamiento armado; fue eso lo que ocurrió en México en 1910, un siglo después de la guerra de independencia. Aún así, la situación está lejos de una solución satisfactoria para el campesinado. Emiliano Zapata seguirá tercamente exigiendo tierra y libertad para el pueblo, carente de ambas.

A donde el sol más calienta

La actitud de la Iglesia católica en toda la América Latina aún después de la independencia fue siempre conservadora; siempre, casi siempre ha ido “a donde el sol más calienta”. Así consta, tanto en obras de carácter ensayístico (Prien, H-J: 1985) como en las de ficción (Pinillos, M-N: 1987). Poco a poco, sin embargo, la Iglesia, concretamente el cura que trata directamente con el campesinado explotado, se inclina en favor del mismo, distanciándose del latifundista. En Brasil, el primer obispo que asumió una actitud clara y decidida en favor de los explotados y contra los poderosos, propietarios y empresas multinacionales, fue don Helder Cámara.

Mientras tanto llegó 1962, año en que se inauguró el Concilio Ecuménico Vaticano II, convocado por el papa Juan XXIII. Las intervenciones de los obispos latinoamericanos durante las sesiones del Concilio fueron pocas y no muy significativas. Tampoco se produjo algún documento que tratara directa y exclusivamente de la problemática latinoamericana. No obstante, la atmósfera conciliar de renovación, de puesta en día (aggiornamento)de la Iglesia en general y de las iglesias locales específicamente, por una parte, y las expectativas del pueblo cristiano, por otra, no dejarían indiferentes aún a los obispos de las diócesis más remotas. No se podía esperar que el Concilio produjera un documento específico para la Iglesia latinoamericana. Esa laguna fue cubierta por la Encíclica Populorum Progressio (1967), un año después del Concilio y uno antes de la II Conferencia del CELAM d en Medellín. En varios pasajes Paulo VI parece dirigirse directamente a la situación socio-económica de América Latina.

Una nueva teología

Como punto de partida de la “nueva teología” o teología de la liberación puede señalarse el Concilio Vaticano II. Teniendo en manos los documentos conciliares más la mencionada encíclica, los obispos se plantearon el problema de la puesta en práctica de la nueva doctrina de la Iglesia. Las expectativas se dirigían hacia la segunda conferencia general del episcopado latinoamericano. Vale recordar que la primera había tenido lugar en Río de Janeiro en1955. El lugar fue acordado en vísperas de terminar el Concilio: sería en Medellín, Colombia, y el tema: “La Iglesia en la actual transformación de la América Latina a la luz del Concilio Vaticano II”.

En el mensaje que dirigen al pueblo presentando las conclusiones de la Conferencia los obispos usan un nuevo lenguaje. En él se detecta el clima posconciliar que se respira; se percibe asimismo la inquietud social en que vive el “Subcontinente”. A diferencia de las especulaciones teo-filosóficas tradicionales, los planteamientos de los líderes eclesiásticos en Medellín tienen como punto de partida la realidad latinoamericana. Lejos del optimismo ingenuo de otrora, reconocen que  “la multiplicidad y complejidad de los problemas (de América Latina) desborda este mensaje” (p. 14). Enseguida pasan a enumerar dichos problemas: “el hambre y la miseria, las enfermedades…, la gestión del bien común” (Ibid.). Declaran luego el compromiso que asumen:

“Creemos que estamos en una nueva historia. Ella exige claridad para ver, lucidez para diagnosticar y solidaridad para actuar” (Id., Ibid.).

VER, JUZGAR, ACTUAR constituirán el eje de la nueva pastoral latinoamericana a partir de entonces. Aquí vemos la “nueva teología en acción”. Ese actuar, iluminado por la luz del mensaje divino y ponderado por la razón tendrá como efecto la liberación del cristiano; liberación del pecado, liberación también de la situación pecaminosa de injusticia en que vive. Tenemos así glosada la definición dela “teología de la liberación: “reflexión crítica sobre la praxis histórica a la luz de la palabra de Dios” (G. Gutiérrez). No ofrecen una panacea para resolver los problemas que aquejan al pueblo. Tampoco asumen la actitud tradicional de mandar que hagan tal y cual cosa; es más bien un “hagamos”, “caminemos”… Declaran: “no tenemos soluciones técnicas ni remedios infalibles. Queremos sentir los problemas, percibir sus exigencias, compartir las angustias, descubrir los caminos y colaborar en las soluciones” (p. 15). No aportan soluciones; las buscarán caminando lado a lado con su pueblo.

Comunidades Eclesiales de Base (CEBs)

Las conclusiones de Medellín no las crean las CBEs, las identifican y señalan su importancia. La CEB es una “comunidad donde (el cristiano) debe vivir   la comunión a que ha sido llamado”. Y explica: “es una comunicad local o ambiental que corresponda a la realidad de un grupo homogéneo, y que tenga una dimensión tal que permita el trato personal fraterno entres sus miembros” (p. 140). Las Comunidades serán, además, los agentes principales del ver, juzgar y actuar auspiciado por los Obispos.

Las CESB´s fueron células que reavivaron las es estructuras parroquiales, entidades con frecuencia enormes y ocupadas muchas veces por párrocos que se limitaban a la administración de los sacramentos de forma más bien rutinaria, un puro sacramentalismo. La vida cristiana de los parroquianos se reducía a la participación de la misa o de ceremonias en días y fechas especiales: Navidad, Pascua, funerales, etc. Una de las consecuencias de ese “culto de masa” es el anonimato de los fieles; declaran a Dios, padre y a Cristo, hermano, pero se ignoran recíprocamente como hermanos. Otra característica de las CEB´s su preocupación también por el aquí y ahora de sus miembros. La discusión comunitaria de los problemas que afectan a uno o más miembros de la comunidad, bajo la inspiración del mensaje revelado y contando también con las luces de la razón y del saber humano, se encontrarán   soluciones a los problemas que surjan en el pueblo.

 

De Medellín a Puebla

Las conclusiones del II CELAM tuvieron repercusión mundial. La Teología de la Liberación (TL) era recibida con júbilo por los cristianos progresistas y con sospecha por los grupos conservadores. ¿Qué dirían los Obispos de la III CELAM de Puebla (México)? ¿Cuál sería la “performance” del nuevo Papa? Las expectativas eran muchas. Así lo eran también los cabildeos que la precedieron. Sobre la tendencia del nuevo papa, polaco, había motivos para esperar de él un impulso hacia un “socialismo latinoamericano”; pero también podría temerse un rechazo casi instintivo a todo lo que se le asemejara. Dentro de la jerarquía católica se entabló una verdadera lucha. El nuevo secretario del CELAM era el arzobispo colombiano Alfonzo López Trujillo, acérrimo enemigo de la TL y, según se supo posteriormente, colaborador de la CIA norteamericana. Tan luego fue elegido el nuevo papa, Trujillo viajó al Vaticano para presionarlo contra la TL. También realizó las maniobras necesarias para que los nuevos directores del CELAM fueran de su agrado.

Trujillo aprovechaba cualquier ocasión para ganar adeptos a su cruzada contra los teólogos favorables al movimiento “Cristianos por el socialismo”. No tardó mucho en aparecer hacia qué lado se inclinaba el Papa. Ya en su vuelo a México para la apertura de la III Conferencia, escenificó un verdadero show respondiendo con “charme” y desparpajo a las preguntas de los periodistas. El tópico de cajón era fe y revolución. Preguntado sobre cristianismo y socialismo, excluyó simplemente la compatibilidad.  ¿Y si hubiera un tipo de socialismo que reconozca la dimensión religiosa y la garantice en la vida del Estado? También lo excluye, alegando inclumplimiento de la promesa. Sobre la Teología dela Liberación fue tajante: “Esa no es verdadera teología. Deturpa el verdadero sentido de los Evangelios. Los que la adoptan se desvían del camino trazado por la Iglesia”. Según este papa quienes empiezan empleando medios políticos dejan de ser teólogos (Berstein – Politi, o. c., p. 207).

Los teólogos de la liberación, con el peruano Gustavo Gutiérrez a la cabeza, sostenían que para salvar a millones de latinoamericanos de las condiciones opresoras en que viven “se podría aplicar el método social marxista de análisis sin aceptar el materialismo de la ideología comunista” (Id. Ibid., p. 214). Para el Vaticano, por consiguiente, para el Papa, quienes así piensan son herejes.

Una escena digna de recordarse fue el encuentro del Papa con una comunidad indígena de Oaxaca, sur de México. Los indios se habían congregado en Cuilapán, después de horas de caminar. El ilustre visitante llega del cielo, traído en alas de un helicóptero. Escogido para dar un saludo de bienvenida al Papa fue el indio zapoteca Esteban Fernández. Una vez repuesto de su asombro inicial logra dar el recado. Habla de la situación en que viven, el despojo que sufrieron y siguen sufriendo… Concluye: “S. Papa, pida al Espíritu Santo alguna cosa buena para nuestros pobres hijos”. El Papa responde con las frases piadosas que la Iglesia usa en esas situaciones, dice que no es justo que sean oprimidos y privados de sus derechos. Fuera de eso, nada. Algo concreto qua a corto, medio o largo plazo mejore la condición de aquellos miserables? Ni pensar.

Mientras tanto llegó el 28.01.79, la apertura solemne de la III CELLAM Puebla. Los allí presentes, miembros de la alta jerarquía de la Iglesia Latinoamericana, más los enviados de diversas entidades y orígenes, eran todo oídos para escuchar al nuevo Papa en aquel evento. En la primera parte de su discurso de una hora, el Papa insistió que la Iglesia latinoamericana debía alejarse del peligro comunista. En la segunda, dedicada a la justicia, la liberación fue usada varias veces. “La Iglesia tiene el deber de proclamar la liberación de millones de seres humanos”. Explica luego lo que entiende por tal: “liberación significa primordialmente liberarse del pecado y del espíritu maligno”. La liberación del alma está así explicada. ¿Y la del cuerpo, la de las estructuras sociales de injusticia y opresión que agobian al Continente latinoamericano…? Esa no urge, puede esperar. Indefinidamente, por lo visto.

El mensaje de Juan Paulo II fue “una llamada en el contexto latinoamericano, una reprensión al clero: que se alejara delos movimientos izquierdistas. Llevaba en su mente el propio modelo polaco de Iglesia y aprovechó el viaje a México para predicarlo al mundo entero” (Berstein – Politi, o.c., p. 213). No podían faltar los cabildeos: la Confederación anticomunista de un lado, y los Cristianos por el cambio, del otro. Los primeros publicaron en los periódicos la lista de los obispos y curas peligrosos. Entre ellos estaba Méndez Arceo de México y Helder Cámara y Pedro Casaldáliga de Brasil. Amnesty International, por su parte, preparó un informe con 17 mil presos políticos y 30 mil desaparecidos.

El largo invierno polaco

Si con Juan XXIII empezó la “primavera de la Iglesia” que culminó con el Concilio Vaticano II y sus inspirados documentos, con Juan Paulo II se inició el movimiento contrario. La descentralización del poder eclesiástico pasando parte del mismo a los obispos y a las conferencias episcopales, como lo había establecido el Concilio, se redujo notablemente; en varios aspectos se volvió a la situación pre-cociliar. Los líderes progresistas de las diócesis, conforme envejecían y se retiraban, eran sustituidos por los candidatos más conservadores. Preguntado el Papa en cierta ocasión por qué había nombrado  al más conservador y menos grato al pueblo católico, respondió con evidente disgusto: “la Iglesia es jerárquica, no democrática”.

La Iglesia Latinoamericana se sometió a las directrices del Vaticano. Algunos de los teólogos “liberacionistas” fueron llamados a Roma y sometidos a un interrogatorio que les hacía recordar los tiempos de la Inquisición. Uno de ellos fue el brasileño Leonardo Boff. Acabó dejando el hábito. Así puede seguir hablando y escribiendo con toda libertad. Por cierto con mucho éxito. En la “lista negra” del Santo Oficio estaba también el obispo Casaldáliga. Pero, estando ya retirado, poco pudieron hacerle. Mientras tanto él sigue escribiendo sus poesías, óptimo ropaje para el mensaje evangélico. Aquí va parte de una de ellas:

Me llamarán subversivo

Y yo les diré: lo soy.

Por mi pueblo en lucha, vivo.

Por mi pueblo en marcha voy.

 

Bibliografía

BERSTEIN – POLITI, Sua Santidade João Paulo II e a história oculta de nosso tempo. OBJETIVA, Rio de Janeiro 1996.

GUTIÉRREZ, Gustavo. Teología de la Liberación. Ediciones Sígueme, Salamanca 1990

PINILLA, Ma. de las Nieves. El sacerdote en la novela latinoamericana. UNAM, 1987.

PRIEN, H. J. La Historia del Cristianismo en América Latina. Ediciones SÍGUEMA, Salamanca (España), 1985.

MEDELLIN 1968. Conclusiones de la II CONFERENCIA de los Obispos latinoamericanos.

PUEBLA 1979. Conclusiones de la III CONFERENCIA de los Obispos latinoamericanos.

 MARX Y SU LEGADO

Hace dos siglos, exactamente el 5 de mayo de 1818, nacía el hombre cuyo nombre aparecería asociado al de Cristo aunque en contraposición al mismo. Guardadas las debidas proporciones se puede decir que Marx es a Marxismo como Cristo a Cristianismo. De ahí el grito: ¡Cristianismo sí, Marxismo no!, de un bando; y İCristianismo sí y Marxismo también!, del otro.El texto que ahora se presenta tiene la finalidad de decir algo de lo mucho que se podría decir sobre el tema. Tampoco pretende ser ni la defensa ni el ataque a uno de los bloques. La crítica al Cristianismo que tal vez quede más explícita, no es sino una especie de autocrítica, ya que es la religión de mis padres y mía.

El cristianismo frente al espejo

Curiosamente los movimientos revolucionarios de diferentes épocas y lugares han tenido un común denominador: un sesgo, anticristiano, anti eclesiástico. Recordemos la Revolución Mexicana, la Guerra Civil española y el movimiento operario que precedió la revolución industrial europea. Sobre la situación de la clase trabajadora en Europa en la última mitad del s. XVIII y primera del XIX conviene recordar la miseria extrema en que se encontraba. Mientras que los empresarios gozaban los beneficios que dicha situación les proporcionaba, contando además con el apoyo de la Iglesia que compartía los privilegios del empresariado.

Data de esa época la Encícica Rerum Novarum de León XIII, que marca el inicio de la Doctrina Social de la Iglesia. Recordemos, no obstante, que dicha Encíclica aparece medio siglo después del Manifiesto Comunista de Marx y Engels. El documento pontificio aborda la cuestión operaria, pero no es más que un balde de agua intentando apagar un incendio de proporciones continentales. El discurso eclesiástico reaccionó de manera débil y tímida al discurso incendiario de los defensores de la clase obrera. Unos botones de muestra. El cardenal Donnet, arzobispo de Burdeos, Francia, predicaba: “al llamar al pobre a las lecciones del pastor, al invitarle al banquete eucarístico y a las solemnidades de la religión, la campana suaviza las penas de su condición, hace menos amargo el pan de la miseria y le proporciona, mediante la pompa de nuestras ceremonias, los únicos goces que, no obstante, una salvaje incredulidad ha intentado arrebatarles más de una vez” (Coste, R. 1973: 9). En una escala superior dentro de la jerarquía eclesiástica, el mismo autor de la R. N. pontificaba:

Finalmente, la cuestión de las relaciones entre rico y pobre, que tanto preocupa a los economistas, quedará perfectamente arreglada por quedar bien establecido y comprobado que la pobreza no carece de dignidad; que el rico ha de ser misericordioso y generoso, y el pobre debe contentarse con su suerte y con su trabajo, ya que ni uno ni otro han nacido para estos bienes perecederos; y que este último debe llegar al Cielo por la paciencia, y aquél por la liberalidad” (Leon XIII, Enc. Sobre la Tercera Orden de S. Francisco, 17.9.1882).

Ante esa doctrina y la actitud que suponía tanto por parte de la Jerarquía como de la clase empresarial, por lo general “devotos cristianos”, no deben extrañarnos las invectivas que aparecían en la prensa de la época (1847).

Los principios sociales del cristianismo han justificado la antigua esclavitud, ensalzado la servidumbre medieval y, en caso de necesidad, son igualmente entendidos en sentido de una prohibición de la opresión, aunque haciéndolo con aire apesadumbrado.

Los principios sociales del cristianismo predican la necesidad de que existan una clase opresora y otra oprimida, y nada tienen que ofrecer a ésta, a no ser el deseo piadoso de que la primera quiera mostrarse caritativa.

Los principios sociales del cristianismo dejan para el cielo el resarcirse de todas las infamias…, justificando así la persistencia de ellas en este mundo. Y remata: los principios sociales del cristianismo son principios de hipócritas y el proletariado es revolucionario (Marx y Engels, Sur la religión, textos escogidos, apud Coste, o. c. p. 7-8).

Doctrina social de la Iglesia.

La Iglesia tardó en aceptar por lo menos parte de las críticas hechas por los socialistas. Fue el papa Juan XXIII quien mostró una actitud más abierta hacia los problemas del subdesarrollo, con las Encíclicas Pacem in terris y Mater et Magistra. Fue principalmente en el Concilio Vaticano II, convocado por el mismo papa, donde la Iglesia se mostró dispuesta al diálogo. El documento  conciliar más preocupado con los problemas del mundo actual y en el que figura de forma conspicua la cuestión social, es la Constitución Pastoral Gaudium et Spes. Refiriéndose al ateísmo, opción predominante en la clase obrera, atribuye como una de sus causas la misma vida de los miembros de la Iglesia. “En la génesis del ateísmo gran parte la tienen los creyentes, ya que descuidando la educación de la fe, o por exposición falaz de la doctrina, o por falta en su vida religiosa, moral y social, se puede decir que, en vez de manifestar la genuina faz de Dios, se puede decir que la esconden” (GS, n.254).

El Concilio hace patente la actitud de la Iglesia, dispuesta a dialogar con toda la familia humana. Para ello cuenta con una experiencia milenaria, tanto que Paulo VI, en su discurso ante la ONU el 4 de octubre de 1965, se presentó como “experto en humanidad”. Podemos admitir que el papa Montini, autor de la Encíclica Populorum progressio, entre otros textos de alto nivel, lo merece; pero habrá quien se resista a atribuirlo a la Iglesia en general. En efecto, no es tan fácil hacerse de la vista gorda ante un pasado en que figura la Inquisición, la cruzada contra los Albigenses, la conversión de los Sajones impuesta por Carlomagno y los anatemas del Syllabus de Pío IX contra las legítimas conquistas del mundo moderno (Coste, o. c. p. 10). Volviéndonos hacia la América Latina,  ¿qué decir de la evangelización en que la espada precedió a la cruz y la evangelización fue usada para encubrir la violencia y el despojo de que fueron víctimas los pueblos amerindios?

Pedir que la Iglesia profiera un mea culpa, sería demasiado.  Hay que tener presente la infalibilidad del Papa, definida por el Concilio Vaticano I, bajo Pío IX. No por acaso este papa fue beatificado por Juan Paulo II, igualmente autoritario y conservador. De cualquier manera, entre la aparición de la Rerum Novarum(1893)y la Populorum Progressio (1967), con el Concilio Vaticano II de por medio, el pensamiento social de la Iglesia ha hecho notables progresos. La Encíclica de Paulo VI sobre “El desarrollo de los pueblos” fue un valioso documento para los Obispos de América Latina congregados en Medellín. Esa encíclica puede considerarse como el más osado documento del corpus que forma la doctrina social de la Iglesia. En ella el papa propone “una visión cristiana del desarrollo”, que “para ser auténtico debe ser integral, es decir, promover a todos los hombres y a todo el hombre” (n. 14).

Debe advertirse que, para llegar a ese punto, la Iglesia tuvo que aproximarse al pensamiento marxista. Estudiosos del tema señalan la influencia del análisis marxista incluso en la doctrina social de la Iglesia. Eso se ve ya en la Quadragesimo Anno de Pío XI, en que se habla de la sociedad dividida entre patronos y proletarios; en vez de hablar de lucha de clases (Marx) el Papa emplea enfrentamiento, etc. (Miranda, P. 1972, p. 2). En documentos eclesiásticos posteriores la influencia del pensamiento socialista es más evidente. De ahí la conclusión de Miranda (Id., Ibid.) Todos estamos sobre los hombros de Marx.

Pasada la Edad Media, época en que la Iglesia detentaba tanto el poder espiritual como el temporal, y sacudida por la Reforma protestante, mas siempre teniendo un poder considerable, la Iglesia se vio frente al movimiento obrero, activo y en cierto modo agresivo, en el periodo que marcó la Revolución Industrial. Hasta entonces no se había dado cuenta de la importancia que tienen para los hombres las estructuras propias del sistema en el que está inserido. El descubrimiento de dicha importancia se debe a un grupo de pensadores, entre los que se destaca Carlos Marx. Él percibió que la solución a la situación de miseria en que vivían los trabajadores  “no dependía de la buena voluntad de los patronos, de su concepto de lo justo e injusto, de su generosidad; era necesaria una reforma radical del sistema económico que los explotaba vergonzosamente” (Coste, o.c. p. 11).

La Iglesia finalmente había llegado a convencerse de la necesidad de un cambio substancial en las estructuras sociales. Veía con suspicacia la división de la sociedad entre “opresores y oprimidos”; en vez de “lucha de clases” prefería hablar de fraternidad cristiana entre la clase trabajadora y la empresarial, etc. El desacuerdo era total en lo referente a los medios a usarse para subvertir el sistema vigente en la época: medios pacíficos, propuestos por la Iglesia, la revolución en sentido estricto, defendida por los socialistas. Están convencidos de que es la única manera de lograr sus fines. El Manifiesto Comunista concluye:Que tiemble la clase patronalante la revolución comunista”.   Había que esperar hasta la Encíclica Populorum Progressio de Paulo VI para ver exorcizada la palabra revolución. El papa Montini la considera posible, aunque como último recurso a que se puede echar mano (n. 31).

Festina lente *      

El movimiento hacia la aproximación, sin embargo, no ha sido lineal, continuo. Por lo que respecta al bloque socialista, el “Socialismo Real” (la URSS), la disolución de la Unión Soviética y la caída de la “cortina de hierro”, pusieron en evidencia las lacras del sistema. Suponiendo que  esa fuera la “Dictadura del Proletariado” auspiciada por Marx y Engels, no sería sino un rotundo fracaso. Mientras tanto, en Occidente se afianzaba el neoliberalismo, con los efectos devastadores vividos aún en la actualidad. El discurso neoliberal quiere hacer creer que el socialismo cayó por su propio peso y que el único sistema viable y deseable es el impuesto por EE. UU. Por otra parte, si dirigimos la mirada hacia el “Cristianismo Real”, constatamos que se ha alejado tanto del ideal cristiano como el socialismo en relación al suyo.

El Cristianismo y el Marxismo continúan lado a lado; de vez en cuando, frente a frente. El punto de encuentro es el ser humano, al que ambos quieren salvar. La Iglesia ha sido criticada por interesarse exclusivamente, o casi exclusivamente de la salvación espiritual. Al Socialismo no le ha interesado sino la salvación en el aquí y ahora (hinc et nunc). La religión es una de las ideologías que hay que combatir, afirman los socialistas. El socialismo es un de las “ideologías totalitarias” que la Iglesia rechaza.

Podemos decir, con base en la actitud de la Iglesia en época reciente y del socialismo en algunas de sus recientes manifestaciones, que la política de la confrontación ha cedido espacio al diálogo. ¿Cristianismo O Marxismo? O  ¿Cristianismo Y Marxismo?, pregunta el Dr. José M. Camorlinga en su tesis doctoral presentada en la UNAM (México, 1992). Sus conclusiones, después de una investigación exhaustiva dentro del ámbito propuesto,   son en favor de la segunda opción. Esa es también la preferencia de los sectores progresista de la Iglesia en la actualidad.

Cristianismo Y… La conjunción copulativa en vez de la adversativa indica la compatibilidad de los sistemas; no solo teórica sino también  prácticamente. Para concluir dirijamos la mirada hacia lo que puede considerarse una caso concreto de convivencia de Cristianismo y Marxismo. Nos referimos al experimento cubano. En primer lugar hay que observar que el socialismo de esa isla-nación no vio la necesidad de perseguir a la Iglesia. No se oyen historias de obispos o cristianos cubanos encarcelados por practicar su religión, como ocurrió en algunas naciones del Este europeo. Son conocidas las dificultades económicas experimentadas por los cubanos. Algunos quieren atribuirlo a la inviabilidad del sistema o a la ineptitud o corrupción de los gobernantes.  ¿No será más bien resultado de hostigamiento de EE. UU que se ha valido de todos los medios para provocar el fracaso del modelo cubano? Pregunta en espera de la respuesta de los lectores.

Por fin registremos otra especie de progreso: el socialismo ya no es visto como el espantajo para asustar al pueblo y alejarlo de cualquier tendencia progresista. Por otro lado, grupos de católicos esclarecidos han dado su apoyo a gobiernos de orientación socialista. Cristianismo Y Marxismo, lejos de ser antagónicos, pueden ser complementarios. Ambos pueden contribuir al cambio, auspiciado por Cristo en su tiempo y por Marx en el s. XIX. Es lo que se expresa en su epitafio, frase tomada de sus mismos escritos: los filósofos han interpretado el mundo, de diversas maneras; el asunto es cambiarlo.

 

* festina lente:expresión paradójica que en español equivale a: vísteme despacio porque tengo prisa.

Referencias bibliográgica

CONCILIO VATICANO II – Constituciones, Decretos, Declaraciones. VOZES, Petrópolis, 1969.

MIRANDA, José Porfirio, Marx y la Biblia – Crítica a la filosofía de la opresión. UAM, México, 1972.

Populorum Progressio, Carta Encíclica de S. S. Paulo Sexto, Ed. Poligrota Vaticana, 1967.

COSTE, Rene. Iglesia y vida económica. El Mensajero, Bilbao España, 1973.

 

Rafael Camorlinga, mayo de 2018.

 

O duelo entre a vida e a norte

PRESENTACIÓN

El tema es, una vez más, la resurrección de Cristo. Cedo la palabra al teólogo Leonardo Boff. Me limito a poner en español lo que él dice en portugués; con un breve comentario, referente a la situación actual vivida por el Pueblo brasileño.

 

O duelo entre a vida e a norte

Leonardo Boff

 

Num dos mais belos hinos da liturgia cristã da Páscoa, que nos vem do século XIII, se canta que “a vida e a morte travaram um duelo; o Senhor da vida foi morto mas eis que agora reina vivo”. É o sentido cristão da Páscoa: a inversão dos termos do embate. O que parecia derrota era, na verdade, uma estratégia para vencer o vencedor, quer dizer a morte. Por isso, a grama não cresceu sobre a sepultura de Jesus. Ressuscitado, garantiu a supremacia da vida.

A mensagem vem do campo religioso que se inscreve no humano mais profundo, mas seu significado não se restringe a ele. Ganha uma relevância universal, especialmente, nos dias atuais, em que se trava física e realmente um duelo entre a vida e a morte. Esse duelo se realiza em todas as frentes e tem como campo de batalha o planeta inteiro, envolvendo toda a comunidade de vida e toda a humanidade.

Isso ocorre porque, tardiamente, nos estamos dando conta de que o estilo de vida que escolhemos nos últimos séculos, implica uma verdadeira guerra total contra a Terra. No afã de buscar riqueza, aumentar o consumo indiscriminado (63% do PIB norte-americano é constituído pelo consumo que se transformou numa real cultura consumista) estão sendo pilhados todos os recursos e serviços possíveis da Mãe Terra.

Nos últimos tempos, cresceu a consciência coletiva de que se está travando um verdadeiro duelo entre os mecanismos naturais da vida e os mecanismos artificiais de morte deslanchados por nosso sistema de habitar, produzir, consumir e tratar os dejetos. As primeiras vítimas desta guerra total são os próprios seres humanos. Grande parte vive com insuficiência de meios de vida, favelizada e superexplorada em sua força de trabalho. O que de sofrimento, frustração e humilhação ai se esconde é inenarrável. Vivemos tempos de nova barbárie, denunciada por vários pensadores mundiais, como recentemente por Tsvetan Todorov em seu livro O medo dos bárbaros (2008). Estas realidades que realmente contam porque nos fazem humanos ou cruéis, não entram nos calculos dos lucros de nenhuma empresa e não são considerados pelo PIB dos países, à exceção do Butão que estabeleceu o Indice de Felicidade Interna de seu povo. As outras vítimas são todos os ecossistemas, a biodiversidade e o planeta Terra como um todo.

Recentemente, o prêmio Nobel em economia, Paul Krugmann, revelava que 400 famílias norte-americanas detinham sozinhas mais renda que 46% da população trabalhadora estadunidense. Esta riqueza não cai do céu. É feita através de estratégias de acumulação que incluem trapaças, superespeculação financeira e roubo puro e simples do fruto do trabalho de milhões.

Para o sistema vigente e devemos dizê-lo com todas as letras, a acumulação ilimitada de ganhos é tida como inteligência, a rapinagem de recursos públicos e naturais como destreza, a fraude como habilidade, a corrupção como sagacidade e a exploração desenfreada como sabedoria gerencial. É o triunfo da morte. Será que nesse duelo ela levará a melhor?

O que podemos dizer com toda a certeza que nessa guerra não temos nenhuma chance de ganhar da Terra. Ela existiu sem nós e pode continuar sem nós. Nós sim precisamos dela. O sistema dentro do qual vivemos é de uma espantosa irracionalidade, própria de seres realmente dementes.

Analistas da pegada ecológica global da Terra, devido à conjunção das muitas crises existentes, nos advertem que poderemos conhecer, para tempos não muito distantes, tragédias ecológico-humanitárias de extrema gravidade.

É neste contexto sombrio que cabe atualizar e escutar a mensagem da Páscoa. Possivelmente não escaparemos de uma dolorosa sexta-feira santa. Mas depois virá a ressurreição. A Terra e a Humanidade ainda viverão.

 

Duelo entre la vida y la muerte

Traducción

 

En uno de los himnos más hermosos que nos viene del siglo XIII se canta que “la vida y la muerte trabaron un duelo; el Señor de la vida fue muerto pero he aquí que, ahora vivo, reina”. Ese es el sentido de la Pascua: la inversión de los términos. Lo que parecía una derrota era en realidad una estrategia para vencer al vencedor, la muerte. Por eso la hierba no creció sobre la sepultura de Jesús. Resucitado, garantizó la supremacía de la vida.

El mensaje viene del campo religioso, que se insiere en lo humano más profundo, pero su significado va más allá. Adquiere una relevancia universal, principalmente en la actualidad en que se  da física y realmente un duelo entre la vida y la muerte. Ese encontronazo ocurre en todos los frentes y tiene como campo de batalla el planeta entero, involucrando a toda la comunidad viviente y a toda la humanidad.

Eso sucede porque nos estamos dando cuenta, demasiado tarde, de que el estilo de vida que hemos escogido en los últimos siglos implica una verdadera guerra total contra la Tierra. En el afán de buscar riqueza, de aumentar el consumo indiscriminado (63% del PIB norteamericano está constituido por el consumo que se trasformó en una cultura consumista) se están dilapidando los recursos y servicios de la Madre Tierra.

En tiempos recientes ha crecido la consciencia colectiva de que se está emprendiendo un verdadero duelo entre los mecanismos naturales de la vida y los mecanismos artificiales de la muerte, causado por nuestro sistema de habitar, producir y tratar los deshechos. Las primeras víctimas de esta guerra total son los mismos seres humanos. Gran parte vive con insuficiencia de recursos, en villas miseria y explotados como fuerza de trabajo. Cuánto sufrimiento, frustración y humillación hay atrás de todo eso, es inenarrable. Vivimos tiempos de nueva barbarie, denunciados por varios pensadores mundiales, como lo ha hecho recientemente Tsvetan Todorov en su libro El miedo de los bárbaros (2008). Estas realidades que verdaderamente cuentan porque nos hacen humanos o crueles, no entran en el cálculo de los lucros de ninguna empresa y no son tomados en cuenta por el PIB de los países, con excepción de Buthon que estableció el Índice de Felicidad Interna de su pueblo. Las otras víctimas son todos los ecosistemas, la biodiversidad y el planeta Tierra como un todo.

Recientemente el premio Nobel de economía, Paul Krugmann, reveló que 400 familias norteamericanas poseen ellas solas más renta que el 46% de la población trabajadora estadunidense. Esta riqueza no cae del cielo. Se logra mediante estrategias de acumulación que incluyen trampas, superespeculación financiera, robo puro y simple del fruto de trabajo de millones.

Para el sistema vigente, y debemos decirlo con todas las letras, la acumulación ilimitada de lucros se tiene como inteligencia, la rapiña de recursos públicos y naturales como destreza, el fraude como habilidad, la corrupción como sagacidad y la explotación desenfrenada como sabiduría gerencial. Es el triunfo de la muerte. ¿Será ella la vencedora en este duelo?

Lo que podemos decir sin riesgo a engañarnos es que en esta guerra no tenemos ninguna posibilidad de ganarle a la Tierra. Ella existió sin nosotros y puede continuar sin nosotros. Nosotros somos los que la necesitamos a ella. El sistema dentro del cual vivimos es de una espantosa irracionalidad, propia de seres realmente dementes.

Analistas del movimiento ecológico global de la Tierra, debido a simultaneidad de muchas crisis existentes, nos advierten que podremos conocer, en tiempo no muy distante, tragedias ecológico-humanitarias de extrema gravedad.

Este es el contexto sombrío que se debe tener en cuenta al escuchar el mensaje de Pascua. Posiblemente no escaparemos de un doloroso viernes santo.  Pero luego vendrá la resurrección. La Tierra y la Humanidad continuarán vivos.

El autor

Leonardo Boff, teólogo laico brasileño, tiene una biografía muy interesante. Su actividad literaria se puede dividir entre “clerical” o “eclesiástica” y “pos-clerical” o laica. Mirando su trayectoria podemos concluir que su salida del ministerio sacerdotal fue una reacción a la presión o más bien persecución, de las autoridades eclesiásticas. En su entrevista a la TV Cultura (Brasil) contaba la manera autoritaria como lo habían tratado. El “Inquisdor mayor” entonces, era el Card. Joseph Ratzinger, en tiempo del papa Wojtyla. Boff dice haberse sentido como en tiempos de la Inquisición; solo faltó que lo condujeran maniatado en presencia de los inquisidores. Como castigo por su producción literaria en pro de la teología de la liberación y critica del autoritarismo eclesiástico, se le impuso un año de mutismo, “silencio obsequioso”. Objeto de tal obsequio no era otro sino el polaco Juan Paulo II.

Su nuevo ministerio

Boff fue propiamente obligado a dejar el ministerio sacerdotal. Se creía que, quitándole el púlpito, no habría más quien lo escuchara. Se equivocaron. El otrora teólogo franciscano ha dejado de ser fraile franciscano, pero no ha dejado de ser teólogo. Según Borges, “todo hombre culto es un teólogo, y para ello nos es indispensable la fe”. Por supuesto, al dejar el hábito Boff no ha dejado la fe. Continúa hablando de Dios y de Cristo con un entusiasmo aún mayor que antes, enriqueciendo su visión teológica con el énfasis en la antropológica. De ahí su preocupación por el hombre y por la mujer de carne y hueso, manifiesto en su abordaje de temas sociales, ambientales y de género.

En el texto “Duelo entre la vida y la muerte” vemos cómo aproxima la pasión, muerte y resurrección de Cristo a la situación vivida actualmente por la Tierra, por sus habitantes. El triunfo de Cristo sobre la muerte garantiza del triunfo de la Humanidad. Pero eso no le evita un doloroso “viernes santo”, después del cual vendrá el triunfo dela Madre Tierra, con o sin los seres humanos. No olvidemos que la Tierra existió antes que los humanos, y puede continuar sin ellos.

Vale la pena mencionar aquí la última aparición de Leonardo Boff en público: la visita al ex presidente Lula, visita frustrada porque la autoridad correspondiente negó el permiso. Boff iba acompañando al pacifista y detentor del Premio Nobel de la Paz, el argentino Adolfo Pérez Esquivel. La Juez, actuando en acuerdo con el autoritarismo en que vive actualmente el Brasil, negó la licencia para que un pacifista y un teólgo visitaran a un “preso político”. En entrevista Boff declaró: “el ex presidente Lula no es un político preso. Es un preso político”.

La metáfora del duelo muerte-vida que encabeza el texto aquí comentado, puede aplicarse a la situación actual del pueblo brasileño. Las fuerzas de la muerte han desencadenado una lucha contra el movimiento de libertad y bienestar que para el pueblo pobre representan la vida. ¿Cuál vencerá? Aparentemente las fuerzas “mortales” o mortíferas son invencibles. Quienes han tenido la sartén por el mango quieren continuar así por tiempo indefinido.

Ojalá el pueblo que habla y se manifiesta pacíficamente en defensa de quien mejor lo ha representado, encuentre el apoyo de las diferentes iglesias, principalmente de las que se declaran “cristianas”. Sobre la cristiano-católica, mayoritaria en Brasil, es de esperarse que, para hablar de justicia y derechos humanos, sus ministros no tengan que “colgar el hábito”, como tuvo que hacerlo Leonardo Boff.

RESURRECCIÓN Y REENCARNACIÓN

PRESENTACIÓN

Celebramos en estos días la pasión, muerte y resurrección de Cristo. “Resucitó. No está aquí (en la tumba)”. Nosotros, cristianos, haremos el mismo recorrido. Pero nuestra resurrección no será “al tercer día”, sino un poco después.

RESURRECCIÓN Y REENCARNACIÓN

Introducción

Pasado el bullicio del carnaval sigue el tiempo de cuaresma, que termina con el Domingo de Ramos. Viene luego la semana santa, en que se conmemora la pasión y muerte de Cristo, culminando con la Resurrección: Domingo de Pascua. Borges, que aborda literariamente temas teológicos, dice a propósito de la encarnación: “el Hijo de Dios, al hacerse hombre pasó de la ubiquidad al espacio, de la eternidad a la historia, de la dicha sin límites a la mutación y a la muerte”. A esta cita se puede añadir el poema “Cristo en la cruz” del mismo Borges. En general lo que figura como símbolo del Cristianismo es la cruz o el Crucifijo. La Resurrección de entre los muertos, artículo fundamental de la religión católica queda en segundo plano y no siempre con la relevancia que le corresponde.

El cristiano cree, no solo en Cristo crucificado y muerto de forma horrenda, sino en la Resurrección de entre los muertos, triunfo en el que participan quienes creen en Él. “El que resucitó a Cristo Jesús de entre los muertos dará también la vida a vuestros cuerpos mortales” (Rm 8, 11). Esa nueva vida prometida al cristiano no es sino la vida del mismo Cristo. “Si muere en Cristo, también resucitará con Èl”. La cuestión es el cuando.

En efecto, en cada misa dominical se profesa la muerte y resurrección de Cristo. Esa profesión de fe o Credo termina proclamando “la resurrección de la carne”, nuestra propia resurrección. ¿“Resurrección”?, ¿“Reencarnación”?, ¿“Inmortalidad”? …

Certeza de la muerte, incertidumbre del “después”

“Se necesitan nueve meses para hacer un ser humano, y basta un día para matarlo”, constata un personaje de La Condición Humana (Malraux 1972, 301). A ese pesimismo de la literatura existencialista responde la Iglesia Católica en el prefacio de la misa de difuntos: “vita mutatur, non tollitur” (la vida se transforma, no se aniquila). El Catecismo de la misma Iglesia afirma: “En la muerte es donde la condición humana alcanza su punto más alto”. Los justos “los que mueren en Cristo, participan de su muerte y también de su resurrección” (n. 1006). En otro catecismo, el polémico“ Catecismo Holandés” que apareció en tiempo del Concilio Vaticano II, leemos: “Nunca encontrará el hombre ni dará en su vida bastante amor, verdad, libertad, belleza, bondad y alegría. Vivimos continuamente tensos hacia un nuevo mañana”. Partiendo de esa insatisfacción absoluta del ser humano, dicho Catecismo concluye: “vivimos con la mira puesta en algo último y definitivo”. Esa situación de espera en vive el cristiano es la esperanza: creo (espero) en la resurrección de la carne.

El aval de la esperanza cristiana es el mismo Cristo: las resurrecciones que hizo, su palabra su propia Resurrección. Entre las primeras está la resurrección de la hija de Jairo (Mc 5, 21-43). Cuando le avisan al padre de la niña que su hija ya murió, que no incomode más al Maestro, el Nazareno responde como en broma: “la niña no está muerta sino dormida”. Llama igualmente “sueño” a la muerte del amigo Lázaro: “nuestro amigo duerme” (Jn 11, 11). Recordemos ahora el pasaje narrado en Mc 4, 35-41: los Discípulos se ven en serios apuros, mientras el Maestro duerme (Mc 4, 38). Asustados, lo despiertan. Él los llama poco menos que cobardes; calma luego la tempestad. Ahora los discípulos muestran otro tipo de espanto: “ellos se llenaron de gran temor y se decían unos a otros: Pues quién es éste a quien hasta el viento y el mar le obedecen?” (Mc 4, 41). Aquí se puede preguntar: ¿quién es éste a quien hasta la muerte obedece? En varias ocasiones se observa el aturdimiento del ser humano por algo que lo desborda. Viene enseguida la voz que lo tranquiliza: “no temáis” (Mt 6, 22-34; Lc 5, 9-11; 12. 32; Act 2, 43).

Durante su vida pública Jesús demostró claramente que su propia muerte no le llegaría de sorpresa. La anunció en repetidas ocasiones, añadiendo siempre la resurrección al tercer día: (Mc 8, 31; 9, 31; 10, 34). En Mateo Jesús alude al “signo de Jonás”: “el hijo del hombre estará tres días y tres noches en el seno dela tierra”( Mt 12, 40). Es el signo del templo: “destruid este templo y yo lo reedificaré en tres días”. Los Evangelistas explican que es una metáfora: “hablaba del templo de su cuerpo” (Jn 2, 21; Mt 26, 61). Son también de suma importancia las palabras de Cristo con ocasión de la resurrección de Lázaro: “Yo soy la resurrección y la vida; el que cree en mí, aunque muera, vivirá” (Jn 11, 25).

Resurrección de Cristo, resurrección del cristiano

Los textos bíblicos, tanto de los Evangelios como de las Cartas de S. Pablo, usan el mismo concepto, Resurrección, cuando tratan de Cristo y de los cristianos. La vida cristiana es una resurrección anticipada. La resurrección de Lázaro es ya una prueba de ello: “yo soy la resurrección y la vida”. Así se afirma también en la primera carta de S. Juan (1Jn 3, 14): “nosotros sabemos que hemos pasado de la muerte a la vida”. El tema pascual y la nueva vida de los bautizados son, según S. Pablo, una participación en la vida de Cristo Resucitado (Col 2, 12; Rm6, 4ss).

Si Cristo resucitó, también nosotros, cristianos, resucitaremos. Una diferencia importante: Él resucitó al tercer día, nosotros resucitaremos “en el último día”, relacionado con la segunda venida de Cristo, la parusía. En Mt 24, 31ss se describe “la venida del Hijo del Hombre en su gloria, acompañado de todos sus ángeles”. Ante él aparecerán tanto los buenos como los malos. San Pablo pinta con colores más vivos y con detalles la resurrección general: voz del ángel, trompeta para reunir a los elegidos, nubes de la parusía, procesión de los elegidos… (1Tes 4, 15ss; 1Cor 15, 52ss.). En Mt 25, 31-46 se describe el juicio final, un evento cósmico: “cundo venga el Hijo del hombre en su gloria con todos sus ángeles, se sentará sobre su trono de gloria…”.

El largo, indefinido intervalo entre la muerte individual del cristiano y la resurrección en el “último día” pone a prueba la paciencia de las primeras comunidades cristianas. También en tiempos más recientes ha dado pie a especulaciones más o menos felices. “No es poco frecuente el que para muchos quede en pie el interrogante: ¿qué es exactamente la

resurrección?… la resurrección aparece, en gran medida, para algunos, erróneamente ligada a reencarnación, por lo menos confusa” (Jorge E. Mújica). La interpretación ortodoxa de los textos bíblicos y oficiales sobre el tema identifica la resurrección de Cristo con la del cristiano. La única diferencia sería el tiempo que media entre la “primera” y la “segunda”, es decir, la definitiva, según se dijo anteriormente. No faltan Confesiones Religiosas, aún entre las que se profesan cristianas, que propugnan la reencarnación. Dejando a un lado las que predican una transmigración o metempsicosis entre diferentes tipos de vida: humana, animal o vegetal, nos detenemos en las que proponen la reencarnación dentro de la especie humana. Un detalle más: esa creencia no sólo circula entre grupos religiosos. Se encuentra también entre profesionales de la psicología y psiquiatría. Cito al menos uno de los muchos libros impresos recientemente: Muchas vidas, muchos maestros. Autor: Brian Weiss. Subtítulo del libro: “La historia real de un psiquiatra, su joven paciente y la terapia de regresión que cambió sus vidas para siempre”.

La reencarnación en su forma más burda – salto de una vida otra, de un cuerpo a otro, como el inseto vuela de flor en flor – es inadmisible. Pero concebida como tránsito entre seres humanos, aun con las múltiples diferencias que hay entre ellos, deja de parecer absurda. Téngase además en cuenta que hay instituciones muy serias, por ejemplo los “Espíritas” – no identificables con el “Espiritismo” existente en algunas naciones hispanoamericanas. Los “Espíritas” brasileños son personas que toman en serio la doctrina cristiana de amor al prójimo, además de promover otros principios cristianos y humanos. Entre quienes profesan la Antroposofía, con su fundador Rudolf Steiner al frente, se da por sentada la reencarnación. Y, en contrapartida, llaman a la muerte “desencarnación”. La reencarnación que ellos propugnan está lejos de ser una metempsicosis o peregrinar caprichoso por vidas humana, animal y vegetal.

Muerte e inmortalidad

Una característica de la teología católica, a partir de S. Tomás de Aquino, es la base filosófica en que se apoya. Suele llamarse “aristotélico-tomista”. En lo concerniente a la muerte e inmortalidad del ser humano está subyacente la filosofía griega sobre la inmortalidad del alma. Cuando el ser humano muere, el cuerpo se deteriora, mientras que el alma va al cielo, al purgatorio o al infierno, según el veredicto del juicio particular. En ese “lugar” o “estado” esperará el juicio final. Esa es la idea común entre los cristianos. Entre los católicos la creencia en el purgatorio lleva consigo una serie de prácticas, generalmente remuneradas, propuestas por la Iglesia para abreviar el periodo de sufrimiento y disfrutar cuanto antes de la visión beatífica. Queda en pie la pregunta: “¿qué es lo que comúnmente se llama alma, eso que escapó del cuerpo y que volverá a unirse al mismo en el “último día?”

Descartada la propuesta de la filosofía griega de la inmortalidad del alma y su separación definitiva del cuerpo (VTB, 685ss), se ofrecen diferentes respuestas. Cito aquí las principales, con sugerencia bibliográfica para quien desee indagar más. Está en primer lugar la “escatología de doble fase”: resurrección en conexión con la parusía, y pervivencia de un elemento consciente (cursiva mía) del hombre entre la muerte y la resurrección (Pozo, p. 168). Esta idea fue bien recibida; fue adoptada incluso por Lutero. Él explica también el estado de las almas

entre la muerte y la resurrección. “Se encuentran en un estado de `dormición`, de sueño en que son insensibles” (Pozo, 169).

La “escatología de fase doble” se asemeja a la idea de la filosofía griega sobre el alma. El “núcleo personal” que sobrevive hasta la resurrección final se asemeja a la inmortalidad del alma de la filosofía griega. Había que buscar otros caminos. Surge entonces la “escatología de fase única”, propuesta por C. Stange (Pozo, 176). “En la muerte muere el hombre todo. La resurrección es interpretada como nueva creación, re-creación total del hombre”. Nada de “vida intermedia” o “estado de dormición”. Vista la muerte como una aniquilación, la resurrección será propiamente una creación ex nihilo. ¿Probable, improbable, reprobable? … En todo caso, absurda no parece, no lo es para los seguidores que ha tenido (Pozo, o. c. p. 170ss).

Cito una tercera opinión, que puede considerarse intermedia. La propone Mújica, ya citado anteriormente. La resurrección o “vuelta a una nueva vida” indica que en realidad no se había muerto del todo. El tiempo que media entre la muerte y la resurrección es sólo una “muerte parcial”. Pasada la etapa provisoria, llegará el momento definitivo: resurrección bienaventurada para los buenos, desventurada para los réprobos. En suma, exceptuando la terminología, esta visión no dista mucho de la común entre el pueblo cristiano.

Concluyo con un caso que puede considerarse emblemático. El intelectual mexicano Antonio Caso, hombre respetable y respetado, estando en su lecho de muerte, recibió la visita de un sacerdote católico que esperaba “convertirlo”. Le hablaba de “la otra vida” en términos deslumbrantes. El enfermo no se entusiasmaba; mostraba poco o ningún interés por las bellezas que el visitante le contaba. Cosas demasiado bonitas para existir realmente, para ser verdaderas.

¿Y qué tal si lo fueran? Le dice el sacerdote.
Lo veré dentro de poco – respondió el moribundo momentos antes de expirar.
Nosotros haremos, tarde o temprano, la misma constatación. Moriremos, sí. Pero la nuestra será “una muerte en Cristo”. Veamos cómo lo dice el poeta-obispo Casaldáliga:

“Morir siempre es vencer
Desde que un día
Alguien murió por todos, como todos, Matado, como muchos”.

Bibliografía

BOROS, Ladislaus. Mysterium mortis. Walter Verlag. Olten und Freiburg im Breisgau. Siebte Auflage, 1967.
MÚJICA, E. Jorge. Resurrección y Reencarnación. Texto en línea. Acceso 12.03.18. POZO, Cándido, S. J. Teología del más allá. BAC, Madrid, 1992.

STEINER, Rudolf, Reencarnação e carma à luz das modernas concepções da Ciência Natural. ANTROPOSÓFICA, São Paulo 1996.
VTB Vocabulario de Teología Bíblica. León Dufour, X. Herder, 1966.

CRIME E CASTIGO – F. Dostoiévsky UMA RELEITURA

APRESENTAÇÃO

Tendo lido, aliás, relido nas férias Crime e Castigo, apresento aqui as minhas impressões. Estas são, obviamente, muito diferentes das suscitadas na primeira leitura, faz meio século. Possam estas páginas ser um convite à leitura ou releitura do romance.

 

CRIME E CASTIGO – F. Dostoiévsky

UMA RELEITURA

Na realidade toda releitura de um clássico “é uma leitura de descoberta como a primeira” (I. Calvino). Aqui vem à tona todo o que se diz dos Clássicos ou dos Canônicos. Clássico ou não, cabe aqui a observação de S. Sontag: “o livro que merece apenas uma leitura, não merece nenhuma”.

Comecemos com alguns dados biográficos do autor. E. Galeano afirma que Dostoievsky nasceu duas vezes (Los hijos de los días, pág. 357). A segunda seria quando, condenado à morte por suas atividades políticas, ficara esperando a execução durante meses, com a angústia fácil de imaginar. Finalmente, chegado o momento, encenou-se a execução, mas no último instante chegou o indulto do czar, que comutava a pena de morte por trabalhos forçados na Sibéria.

O autor de Crime e Castigo, Os Irmãos Karamasov, etc., junto com o de Guerra e Paz, Ana Karenina e outros, são dos mais conhecidos no Ocidente. É também graças a eles que ficamos conhecendo a Rússia do século XIX e XX. Dostoievsky concretamente, no início, foi incluído no realismo literário em voga na Europa da época. Crime e Castigo seria apenas um policial, ainda que bastante elaborado. Mas chegou o momento em que se percebeu “que Dostoievsky não expõe nunca o exterior de suas personagens, das quais conhecemos perfeitamente os mais íntimos movimentos da alma; que ele não descreve nunca a paisagem russa, mas unicamente a paisagem urbana de São Petersburgo, e que esse Petersburgo dostoievskiano é, principalmente, o fantasma de uma cidade visionária” (O. M. Carpeaux, p. 167).

A história de Crime e Castigo.

O título anuncia o que virá. O espaço dedicado ao planejamento e execução do crime é relativamente curto. O “Epílogo”, que narra o verdadeiro final do romance, é curtíssimo; o corpus do livro dedica-se à evolução do criminoso e ao mundo familiar e social em que ele se movimenta, até culminar na sua auto-entrega.

Rodion Románovitch Raskolnikov (Ródia) é um estudante do interior que mora em S. Petersburgo em situação de extrema pobreza. É misantropo e arredio; a sua conversa é quase sempre um monólogo, um continuo fluxo de consciência. “Não que fosse medroso ou apagado, antes bem ao contrário; mas fazia tempo vivia num estado irritadiço e tenso, parecido com hipocondria” (pág. 9). Ao longo da leitura percebemos que é dotado de uma inteligência especial. Quanto ao físico, “era de uma beleza admirável, belos olhos escuros, cabelos castanho-escuros, estatura acima da mediana, esbelto, bem constituído” (p. 10).

Premido pela necessidade Raskolnikov vai penhorar um relógio de bolso com uma corrente de aço. Pede quatro rublos. Aliena Ivánovna lhe oferece um e meio; descontados os juros, fica pouco mais que um rublo. A velha usuraria é inflexível. Voltando a casa Raskolnikov trava conhecimento acidentalmente com Marmieladof. Este, sob o efeito da bebida que acabava de tomar ou por simples tagarelice, conta que, viúvo e com filhos, se juntou com a viúva Katerina Ivanovna. Dentre os filhos que ele levou consigo esta Sonia (Sófia). Conta também como a moça foi empurrada pela madrasta para a prostituição, como meio de arrecadar algum dinheiro para a família. Quando Raskolnikov acompanha o novo amigo a casa conhece a mulher dele e também a filha, Sonia. Ao ver a sordidez daquela família, em que a madrasta empurra a enteada para a degradação e o pai tolera e até se aproveita, Ralkolnikov exclama: “E olhem que se aproveitam mesmo! E se habituaram. Choram, mas se habituaram. O canalha do homem se habitua a tudo!” (p. 33).

As caminhadas de Ródia ao léu e a entrada a lugares públicos frequentados pelos pobres lhe deram oportunidade de ouvir uma conversa entre dois desconhecidos que falavam sobre a ganancia da velha Aliena Ivanovna. Isso não fazia senão reforçar as conclusões a que ele próprio chegara. Pergunta-se: “o que pesa na balança comum a vida dessa velha tísica, tola e má? Não mais que a vida de um piolho, de uma barata… Ela apoquenta a vida de outros. Por estes dias mesmo mordeu o dedo de Lisavieta com raiva: por pouco não arrancou” (p. 73). Pensamentos como esse invadiam a mente de R. enquanto planeja o assassinato da velha nos mínimos detalhes. Perigo de ser descoberto e acabar como outros criminosos? Isso com ele não acontecerá: “a razão e a vontade permaneciam nele, inalienáveis, durante todo o tempo da execução do plano, pelo único motivo de que o que ele planejara não era um crime” (p. 78).

A primeira parte do romance encerra com a narração do duplo assassinato. Não faltaram imprevistos que, de uma ou outra maneira foram contornados, exceto o aparecimento imprevisto de Lisavieta, que teve o mesmo fim que a irmã. O segundo assassinato acentua a complexidade do romance. Se ele não tivesse acontecido, teria Raskolnikov experimentado o mesmo remorso ao ponto de confessar o crime? Quanto ao móvel do crime, se não foi o roubo, qual foi?

À narração do crime segue a do castigo. Começa com o via crucis vivido pelo criminoso. Maior parte dessa “via dolorosa” é percorrida no interior, é um continuado fluxo de consciência. O narrador omnisciente explica o que se passa por trás do muro de mutismo e isolamento de Raskolnikov. Ele passa horas a fio refletindo sobre o assassinato. Crime? Estudante de direito, ele acha justificativa para seu ato: há seres humanos que sequer chegam a sê-lo. Quem os elimina até faz um favor aos demais. Além disso, lembra-se de Napoleão e outros personagens da história responsáveis por centenas de milhares de mortes. Em suma, encontra muitos e fortes argumentos para justificar o crime. Mas tudo isso não lhe poupa o senso de culpa que o atormenta.

Entre os fatos relevantes deste período está a chegada a Petersburgo da mãe Pulkhéria e a irmã Abdocia. Motivo principal de visita: fazer os preparativos para o casamento da moça com Piotr Petrovich – Lujin. Ródia estava já informado desse noivado, mediante carta da mãe. A sua frontal oposição ao casamento é já conhecida. O seu encontro com Lujin foi uma oportunidade para desmascará-lo. Chegado o momento em que Lujin coloca a noiva e a sua mãe ante a alternativa: “eu, ou ele (Ródia)”, elas decidem sem hesitação. O, agora, ex-noivo tentará vingar-se, mas sem sucesso.

Outro encontro de suma importância neste longo interim é de Rodia com Sonia. O pai dela morrera e a mãe, Katerina, manda convidar Raskolnikov para as exéquias; vale lembrar que ele dera à Katerina os únicos vinte rublos que possuía, para o enterro do esposo. Ao ver que a mãe e a irmã de Rodia estão ali, Sonia, tímida, quer ir embora. Ródia a convida a entrar e faz questão de sentá-la entre a mãe e a irmã dele. Já sabemos quem é Sonia. A descrição dela se faz aqui em poucas linhas (p. 244). Mas a Sonia-personagem, ao lado de Raskolnikov ocupa mais da metade do livro. Na conversa acalorada de Ródia com Lujin, quando este falou depreciativamente de Sonia, Ródia lhe disse: “a meu ver, o senhor, com todos seus méritos, não vale o dedo mindinho daquela moça infeliz em quem o sr. atira pedras”.

Desmanchado o compromisso com Lujin, chega o momento em que Rodia se despede da mãe e da irmã. Encomenda-as a Rasumikin, que a esta altura se perfila já como futuro cunhado. Chegou o momento em que Ródia pensa na solução para seu problema: a confissão do crime. O longo caminho a percorrer até chegar lá, passa por Sonia. Ele vai ter com ela. Na demorada conversa no quarto dela, Rodia descobre um livro sobre a cômoda: o NT que Sonia ganhara de Lisvieta, sua amiga. Ele procura a Ressurreição de Lázaro. Pede para Sonia ler enquanto ele escuta com atenção. Após um prolongado silencio Ródia lhe disse ter abandonado seus familiares, e acrescenta: “agora eu tenho só a ti… Sigamos juntos… Eu vim te procurar. Nós dois juntos somos malditos, então vamos seguir juntos” (p. 335). Logo insinua algo, “quase confessa”, mas vai embora deixando-a angustiada.

A confissão virá quase cem páginas depois. É feita de maneira indireta, mas suficiente para deduzir quem fora o autor do crime. “Aquela Lisvieta ele não queria matar…”. Na reação de ambos adivinham-se os mais encontrados sentimentos. Ambos choram. Houve um momento em que ele como que se arrependera de ter confessado, mas ela lhe diz ter feito a coisa certa. Ele reitera: “te convidei para me acompanhar porque eres a única pessoa que me resta” (p. 420). Sonia, que prometeu acompanha-lo a toda parte, o segue também quando vai se entregar à Justiça. Só a presença dela lhe deu ânimo quando ele estava para desistir.

Resolvidos todos os enigmas com plena colaboração do autor do delito, seguirão os passos previstos na lei. A decisão de Ródia de se entregar e cooperar com a Justiça foi vista com agrado pelos Julgadores, que mitigaram a pena na medida do possível. Era, porém inevitável o confinamento para trabalhos forçados na Sibéria. Lá irá ele, lá seguirá também Sonia.

Os primeiros anos foram muito difíceis, também para Sonia. Ródia parecia não reconhecer o gesto dela, a sua generosidade sem limites. Ela, porém, continuou bondosa e prestativa com ele e com todo mundo; ganhou a confiança e até o afeto dos prisioneiros, que a chamavam de “mãezinha”. Discreta, ela levou o NT quando ele pediu, mas nunca fez cobrança alguma em matéria de religião.

Até que chegou o momento solene, na solidão da Sibéria, às margens do rio Irtich. Na margem oposta uns pastores cuidam seus rebanhos, evocando os tempos bíblicos. Providencialmente a sós eles dois, ele é o primeiro a desabar… Declara, com uma linguagem mais eloquente que com palavras, o amor por ela. “Eles quiseram falar, mas não conseguiram. As lágrimas estavam nos seus olhos…”. A ressurreição de Lázaro é trazida à tona mais uma vez. A ressurreição do homicida e a da prostituta é principio de uma nova vida. A felicidade inerente ao amor recíproco fará suportável qualquer penalidade e curta qualquer duração.

O gran finale no epílogo de Crime e Castigo vale por mais outro livro do mesmo tamanho e teor. Também do mesmo autor. Inexistindo este, resta-nos imaginá-lo.

 

Referências bibliográficas.

CALVINO, Italo. Por que ler os clássicos. Companhia das Letras, São Paulo, 2009.

CARPEAUX, Otto Maria. Ensaios Reunidos, 1942 – 1978, vol. I. TOP BOOKS, Rio de Janeiro, 1999.

DOVSTOIÉVSKY, Fiodor. Crime e Castigo. Tradução de Paulo Bezerra. Editora 34, São Paulo, 2016.

GALEANO, Eduardo. Los hijos de los días. Siglo XXI, Argentina, 2012.

 

MÉXICO 2018

 PRESENTACIÓN

El haber pasado en México las últimas semanas del 2017 y las primeras horas del 2018, me ha sugerido una especie de crónica que pongo a disposición de los lectores. Aprovecho para desearles un año colmado de bendiciones.

 

MÉXICO 2018

En Brasil se suele decir que Dios es brasileño, en vista de las abundantes riquezas que le otorgó, además de haberle ahorrado las calamidades naturales que afligen a otras naciones. En México se cuenta un chiste más bien auto-denigrante. Cuando Dios creo el mundo, mandó que a la región que sería México, se le dotara de todo lo bueno y sin límites. El Ángel administrador se permitió preguntar si no era demasiado. A ello el Todopoderoso respondió: “no importa: allí van a estar los mexicanos”. Y allí estamos los mexicanos con casi un siglo de gobiernos priistas; con la alternancia de dos periodos panistas (2000 – 2012) que en nada contribuyeron para una mejora de la Nación. La simbiosis que muestran cuando se votan las grandes cuestiones de la política mexicana los ha unificado con la sigla: PRIAN.

México al derecho y al revés

La contrapartida al chiste auto-denigrante antes citado es el patriotismo a ultranza que se manifiesta en frases “como México no hay dos”, “¡Que viva México!” (con frecuencia seguido de: “… hijos de la Chingada!” – O. Paz). También: “!México Lindo y Querido!”, de la conocida canción popular. Cuando se escuchan esa y otras canciones semejantes estando lejos del terruño, lo sacuden a uno por dentro. ¿Cómo no amar a México, a su gente sencilla y acogedora? ¿al México de sus canciones, de sus comidas, de su artesanía – verdadera arte? Al México de la “Suave Patria” de López Velarde:

Suave Patria: permite que te envuelva

En la más honda música de selva

Con que me modelaste por entero

Al golpe cadencioso de las hachas,

Entre gritos y risas de muchachas

Y pájaros de oficio carpintero.

(…)

El Niño Dios te escrituró un establo

Y los pozos de petróleo, el diablo.

 

Desafortunadamente, las múltiples bellezas que presenta México a sus visitantes no logran ocultar las no pocas lacras que lo aquejan. Llama en primer lugar la atención la superpoblación, sobre todo cuando se llega a la Capital. La concentración en las grandes urbes se debe a la falta de ayuda a los pequeños agricultores que, no pudiendo sobrevivir en su propiedad minúscula, cuando la tienen, emigran a la ciudad. No faltan casos en que las tierras de los pequeños propietarios, cuando tienen petróleo u otros minerales, son simplemente concedidas por el gobierno a las empresas, nacionales o extranjeras. Raras veces la lucha entre David y Goliat resulta en triunfo del primero.

Las multitudes que se amontonan en los núcleos urbanos forman una reserva muy especial, quizá única: “el voto de reserva”. La gente que vive en las villas miseria de la periferia, vende su voto por una suma insignificante o por una despensa. Ese es uno de las canteras donde el PRI suele obtener los votos necesarios para la elección de su candidato.

Democracia a la mexicana

El escritor Vargas Llosa, ahora español antes peruano, llamó al sistema político mexicano “la dictadura perfecta”. Ese acto valiente de aquel Vargas Ll. tuvo lugar en un encuentro de intelectuales promovido por la revista Vuelta, a cargo de Octavio Paz, en 1990. Enseguida el atrevido visitante explicó por qué en México se vivía una dictadura camuflada: es la permanencia ininterrumpida en el poder, no de un hombre, sino de un partido. Partido inamovible, partido que admite la crítica en la medida en que ésta le sirve para aparecer “democrático”, pero que la combate con todos los medios, sin excluir los peores, cuando ve amenazada su permanencia en el poder (Fuser 1995: 13-14). La respuesta del anfitrión al malagradecido visitante no se hizo esperar: se le declaró persona non grata. Ergo

En cuanto a la veracidad de dicha crítica, se confirma con lo que el mismo Fuser describe a continuación: la elección de Salinas de Gortari. Los dos candidatos contendientes eran él y Cuauhtémoc Cárdenas. De haber continuado la cuenta de acuerdo con las boletas, estaba seguro el triunfo de Cárdenas. Pero el proceso se interrumpió misteriosamente, alegando “caída del sistema”. Cuando el funcionamiento se retomó, empezaron a multiplicarse los votos al candidato del PRI, y el vencedor fue el nefasto Salinas de Gortari. Después de manifestaciones y protestas inútiles, Cárdenas y sus votantes tuvieron que aceptar los hechos: el sistema se cayó. O mejor dicho: se calló. Los representantes de la empresa norteamericana Burroughs Unisys que habían vendido el equipo técnico, esbozaron una protesta. Pero se callaron, también misteriosamente. Se habló de un soborno de algunos millones de dólares. Allí se aplicó uno de los principios del PRI: nada es caro, si se compra con dinero.

 

2018, año electoral

El primero de julio del año que acaba de comenzar habrá una elección especial en México: además del presidente, se elegirán los 628 legisladores que integran el Congreso de la Unión; también ocho gobernadores y el jefe de gobierno de la Ciudad de México. Además, 972 diputados para integrar los Congresos estatales en 27 unidades; mil 596 ayuntamientos en 24 estados; 16 alcaldes y 160 concejales de las 16 alcaldías de la Ciudad de México.

La atención se vuelve ante todo hacia el presidente, a la elección del candidato. Quien lo indica es el presidente en turno; y para hacerlo apeló a “la liturgia” típica del PRI: el dedazo (Fuser, 22). En el periodo previo a ese acto, periodo en que se especulaba sobre los candidatos y se esperaba con ansia el anuncio, la revista Proceso (N. 2143) en sus titulares decía: (será) Cuando, … Cómo… y Quien él quiera. A continuación, en la sección informativa empieza con la noticia largamente esperada: Peña Nieto revive el ritual del dedazo (pág. 6). Y poco más adelante: P. N. comenzó el sexto año de gobierno con el juego sucesorio del destape (pág. 7). Y por fin: El bueno, esta vez, es José Antonio Meade – Secretario de Hacienda.

El anuncio se hizo con lujo de publicidad y continuará así hasta la víspera de la elección. Las leyes que regulan los gastos en publicidad y otro tipo de propaganda obligan a los otros partidos, no al PRI. El INE (Instituto Nacional Electoral) y otros órganos cuya función es velar por el correcto desempeño de los partidos en la contienda electoral están en manos de los priistas. En la elección para el gobernador para el Estado de México, en el año que acaba de pasar, el candidato priista fue el vencedor, aunque la que tuvo más votos fue la candidata de Morena – los votantes votan pero no eligen (Galeano – p. 117).

El Presidente y las Fuerzas Armadas

En México, los golpes de estado y las dictaduras militares, frecuentes en América Latina en la segunda mitad del s. XX, fueron sólo noticia. Eso es allá. Aquí está todo en paz. Las Fuerzas Armadas en sus cuarteles, los políticos en sus tribunas, etc. Pero sólo aparentemente. En realidad, la represión violenta, las sesiones de tortura, el lanzamiento de opositores políticos al mar, en suma, la guerra sucia de las otras naciones tuvo lugar también en México, aunque con el sigilo necesario para que los mexicanos no lo supieran y para que no se supiera en el extranjero. Un botón de muestra. David Lozano, estudiante de la UNAM de 22 años, participó en la campaña pro Cárdenas. Mientras caminaba por la calle fue abordado por dos hombres armados que lo obligaron a entrar a un coche y lo encapucharon. Estuvo desaparecido unos días; fue torturado psicológicamente, golpeado y vejado de mil maneras. Luego fue dejado en la calle en la misma forma en que lo habían secuestrado. Al presentar queja y ser examinado por el médico, éste no encontró ninguna señal de golpes; nada anormal en apariencia. “Fue un trabajo bien hecho”, observó el abogado que lo acompañaba (Fuser, o. c., p. 19-19).

Los militares se han vuelto ubicuos en los últimos años a partir del presidente panista Felipe Calderón (2006 – 2012), quien los llamó de sus cuarteles con el pretexto de combatir el narcotráfico. Peña Nieto los ha mantenido alegando el mismo motivo. Resultado: frecuentes y graves violaciones de los derechos humanos, con casi 100 % de impunidad cuando los violadores son militares. De ahí la observación del TPP: “En ese reino de la impunidad que es el México de hoy,  hay homicidios sin asesinos, torturados sin torturadores, violencia sexual sin abusadores” (Tribunal Permanente de los Pueblos, reunido el 14-15 nov. 2014). El caso más escandaloso y violento, brutal, es la desaparición de 43 normalistas en Ayotzinapa, Guerrero, en septiembre de 2014. El hecho se ha divulgado ampliamente dentro y fuera de México, gracias al interés e involucramiento de los padres de los desaparecidos. En todas las investigaciones que se han hecho, incluso por peritos extranjeros aparece claramente como prioridad del gobierno: dejar incólumes a las Fuerzas Armadas. El lector medianamente informado no puede dejar de asociar Ayotzinapa 2014 con Tlatelolco 1968, al Diaz Ordaz de entonces con el Peña Nieto de ahora.

Lejos de esbozar cualquier medida para poner coto a los militares, el gobierno Peña Nieto ha hecho lo contrario: proporcional a los militares un amparo legal; proponer y aprobar la “Ley de Seguridad Interior” (LSI), dando así “más poder a los ya poderosos” (Proceso 2144, p. 20). En virtud de dicha ley los militares tienen la prerrogativa de actuar por cuenta propia para restaurar el orden interno. Son igualmente autorizados para colectar información, quedando las autoridades civiles obligadas a darla.

Las protestas sociales son excluidas del ámbito de la LSI. Se dice expresamente que la ley se ejecutará respetando los derechos humanos. Pero afirma al mismo tiempo que las Fuerzas Armadas tendrán la facultad para emprender acciones “necesarias, pertinentes y eficaces para identificar, prevenir y atender riesgos en determinadas zonas o áreas geográficas” (Proceso 244, p. 21).

A pesar de las recomendaciones de las Naciones Unidas y de la OEA, así como de órganos defensores de los derechos humanos, nacionales e internacionales, la LSI fue aprobada por los diputados y después por los senadores. Doña Yolanda, madre de Dan, desaparecido en 2008, critica: “los diputados no tomaron en cuenta lo que las familias han sufrido por parte de los militares. Su decisión nos hace sentir amenazados” (Proceso 2144, p. 24).

Quien está de plácemes con la aprobación de la LSI, además de los militares mexicanos, es la industria bélica estadunidense. El negocio que está en juego con la aprobación de la LSI es de más de 2 mil millones de dólares para la compra de armamento y equipo militar. El gobierno mexicano ha gastado más de 54 mil millones de pesos en seguridad y defensa desde 2007, cuando Calderón declaró esa guerra. El número de personas asesinadas asciende a 200 mil. Mientras tanto el narcotráfico continúa, obteniendo entre 19 y 20 mil millones de dólares al año (Jacobo Kim, Proceso 2147, p. 18).

Concluiré refiriéndome a los enjuagues de una empresa que involucra tanto a Brasil como a México, corruptor y corrupto respectivamente. Los protagonistas del toma y daca millonario son la Odebrecht brasileña y los políticos mexicanos del más alto nivel.

Brasil, México y la Odebrecht

México es una de las doce naciones latinoamericanas a donde han llegado los tentáculos de la multinacional brasileña. Allí encontró un terreno fértil; escogió, además, el tiempo adecuado para desovar sus sobornos millonarios: 2012, período de elección del presidente del PRI, Enrique Peña Nieto. El encargado de recibir y administrar el soborno fue Emilio Lozoya Austin, que fungía como coordinador de asuntos internacionales durante la campaña del candidato presidencial.

En México la investigación está a cargo de la Fiscalía especial de Delitos Electorales (FEPADE). La primera remesa a México, en concreto a Lozoya, fue de 4 millones de dólares; las sumas posteriores llegaron a 6 millones de dólares. En total: 10 millones de dólares. ¿Qué obtuvo en cambio la generosa multinacional brasileña? Un contrato por mil 364 millones de pesos ante Pemex Refinería, “para acondicionamiento y movimiento de tierra para aprovechamiento de residuales en la refinería Miguel Hidalgo” (Proceso, n. 2145, pág. 30). Queda por cuenta de los lectores imaginar y calcular quién y cómo es beneficiado o perjudicado en ese soborno millonario. Denuncias, seguidas de juicios y condenas las hubo en Brasil y en otros países, en México no. El nuevo titular de la FEPADE ya dijo que ese es un caso de corrupción y a él sólo le tocan casos directamente relacionados con la elección. Eso es, pues, competencia de la PGR. La ausencia de un fiscal independiente y competente asegura la impunidad al corrupto y por supuesto, al corruptor (corruptora). ¿Novedad? Ninguna. Lo sería si en México fuera condenado un político allegado al presidente.

 

Referencias bibliográficas

FUSER, Igor. México em trance, SCRITTA, São Paulo, 1995.

GALEANO Eduardo. El libro de los abrazos. Siglo XXI, México, 1989.

LÓPEZ VELARDE, Ramón. La suave Patria y otros poemas, FCE, México 1979.

PAZ, Octavio. El Laberinto de la Soledad, edición conmemorativa, FCE, México, 2000.

PROCESO, Revista de información y análisis. Diversos números.

 

QUIA PULVIS ES – QUE ES PÓ

APRESENTAÇÃO

Desta vez dirijo-me diretamente aos luso-parlantes e o tema do mês é a morte. Aliás, morte e vida. No duelo sem trégua entre essas inimigas mortais, parece triunfar a primeira. Mas apenas parece… Afinal poderemos desafiá-la como fez o próprio Jesus Cristo: “Morte, onde está a tua vitória, onde o teu aguilhão?! (1Cor 15, 55).

 

QUIA PULVIS ES – QUE ES PÓ

No ano passado o título do texto foi: Memento homo (lembra homem / ser humano); agora completa-se com: que es pó – frase bíblica retomada pela liturgia da quarta feira de cinzas.

A comemoração dos defuntos no segundo dia de novembro parece convidar à reflexão sobre a vida e fim/finalidade da mesma. No hemisfério norte já é outono e a Natureza se prepara para o recolhimento invernal; no hemisfério sul, pelo contrário, estamos em plena primavera, a caminho para o verão. Podemos ver nisso um convite ao otimismo cristão, como reza o prefácio da missa dos defuntos: vita mutatur, non tollitur (a vida é transformada, não aniquilada). Na missa dominical o católico professa sua fé em Jesus Cristo “… que ressuscitou ao terceiro dia”, e na sua própria ressurreição: “… na ressurreição dos mortos”. Respeitando a fé do cristão, católico ou de qualquer denominação, abordamos agora o tema do ponto de vista “laico” ou simplesmente humano.

A morte, tema incontornável.

A morte tem tantas caras quantas tem a vida, da qual é contrapartida. Elas duas, morte e vida, mais o amor, são os macro-temas da literatura. A dupla morte-vida se digladiam na discussão sobre a “morte assistida” ou eutanásia. Neste contexto surge o tema de “o direito a morrer”, ou morrer com dignidade. O saudoso Rubem Alves vai além: “seria possível planejar a própria morte como uma obra de arte?” – pergunta ele. Muitos nos contentaríamos com menos: morrer com dignidade; ou se não, morrer com elegância. Vem aqui à tona a frase lapidaria de santo Agostinho: tamquam vita, finis ita (qual a vida, assim a morte, o fim).

E, que dizer do humor? Vale a pena lembrar aqui um humorista italiano que, quando soube que a doença que padecia era grave, provavelmente terminal, nem por isso perdeu o humor. Quando chamaram o sacerdote para que lhe administrasse a unção dos enfermos, ao vê-lo entrar com a redoma em mãos, exclamou: “agora sim que estou frito, até o óleo trouxeram”! Não faltam casos semelhantes no nosso Brasil “caboclo”, escasso talvez de letras, mas não de sabedoria. “Vivendo e aprendendo”, dizia a avó Adelina cada vez que as netas, e depois as bisnetas, lhe mostravam as novidades que traziam da cidade grande. Maravilhada e interessada a vó de todos exclamava: “vivendo e aprendendo”! Chegado o dia e o momento derradeiro, os parentes e vizinhos lotaram a casinha da anciã. Quando já começava a definhar, pensaram que estava na hora de colocar uma vela na mão, como era o costume na região. Ao não encontrar o objeto ritual, pensou-se na substituição: um papel enrolado em forma de charuto. Tudo feito com muito carinho e cuidado para não queimar ninguém. A vozinha acompanhou toda a cerimonia e ao apanhar a vela improvisada, veio à tona sua frase favorita, mas “corrigida”: “vivendo e… aliás, morrendo e aprendendo”.

 

O teatro da vida

Ainda humor, ou próxima do mesmo está a ideia de Chaplin sobre a vida: “a vida é um teatro, sem chance de ensaio. Por isso, canta, ri, dança, ama e vive cada momento de tua vida, antes que a cortina caia e a peça, sem aplauso, encerre”. Algo parecido afirma o escritor O. Wilde: “a vida é importante demais para ser levada a sério”.

La vida es sueño

A referência ao sono como metáfora da morte vem de longa data. O próprio Jesus Cristo em duas das três ressurreições que fez, falou do morto como se estivesse apenas dormindo: “nosso amigo Lázaro dorme, mas vou despertá-lo” (Jo 11, 11); “… a menina não morreu; está dormindo” (Mc 5, 39). Para o Filho de Deus a morte, inclusive a dele mesmo, não tinha o selo de “para sempre” que caracteriza a morte de todos nós, mortais.

Para os escritores do Siglo de Oro español é o sonho (não o sono) que é metáfora da vida. Com efeito, é esse o título da famosa peça de Calderón de la Barca: “La vida es sueño”. Compenetrados do cristianismo os escritores dessa época focalizavam a efemeridade da existência, como reza a exortação de Paulo aos cristãos de Corinto: “a figura deste mundo passa” (1Cor 7, 31). Nessa linha de pensamento o acordar está para o sonho como o morrer está para a vida. Vale lembrar aqui que em espanhol o substantivo sueño é biléxico: significa tanto sono como sonho, em português. Na referida peça de Calderón sueño significa literalmente sonho, em português, mas no sentido de irrealidade, sombra, quimera; longe também do inglês dream; mais próximo talvez do “daydreaming”.

Em La vida es sueño todo mundo sonha, do monarca ao útimo plebeu: Sueña el rey que es rey y vive / en este mundo mandando / y el aplauso que recibe (…) en ceniza lo convierte / la muerte (¡desdicha fuerte!) / ¿Qué hay quien intente reinar, / viendo que ha de despertar / en el sueño de la muerte?

Esse discurso é parte do soliloquio do prisionero Segismundo, que encerra a cena II com o questionamento: ¿Qué es la vida? … una ficción… Y todo bien es pequeño; / que toda la vida es sueño, / y los sueños, sueños son.

A saída desse sonho geral advirá na morte, que atingirá por igual o nobre e o plebeu, o rei e o próprio Sigismundo.

 

A morte … igualitária.

A ideia está numa poesia de Mario Benedetti cujo título é: Embarazoso panejírico de la muerte. O poeta uruguaio começa revelando não acreditar no além. Isto o angustia, mas a vida oferece fartos motivos, mais que a própria morte para ficar angustiado. Com efeito, os vexames ou simplesmente as arbitrariedades nos colocam em compartimentos separados. Separam-nos os ódios, as discriminações, as contas bancárias, a cor da pele, etc. A morte, no entanto, coloca-nos todos no mesmo saco: ricos e pobres, súditos e reis, crentes e agnósticos… A morte faz uma justa distribuição do nada; é igualitária e equânime… A morte é eclética, pluralista, social, insubornável. E continuará assim… Pelo menos enquanto não apareça alguém que invente de privatizá- la.

Francisco de Quevedo assinala também essa propriedade da morte, isto é, a sua imparcialidade. É assim que ele mostra no seguinte quarteto:

!Cómo de entre mis manos te resbalas!

!Oh, como te deslizas , edad mía!

¡Qué mudos pasos traes, oh muerte fría!

Que con callado pié todo lo igualas!

 

Conclusão

Quando se aborda o tema religião vem à tona o ditado latino antigo: “Quot capita tot sentintiae” – são tantas as opiniões quantas as cabeças. Ou, em vulgar: cada cabeça é um mundo. Quando o item em pauta é a vida no além, adentra-se num verdadeiro cipoal. Tanto os crentes como os incrédulos podem aduzir razões igualmente “convincentes”. Nem os primeiros nem os segundos são capazes de explicar a sua fé ou a falta dela. A grande maioria dos que celebramos o dia de defuntos aderimos à fé cristã. Ela não nos libera da dor quando algum dos nossos familiares ou amigos parte. Então a nossa dor é temperada pela esperança cristã; ou por um amor “mais forte que a morte”, como lemos no soneto de Quevedo, transcrito a seguir. Nele podemos ver uma resposta à sentença, título deste escrito: …es pó. “Sou, sim; mas pó enamorado”.

 

“Amor constante más allá de la muerte”,

 

Cerrar podrá mis ojos la postrera

Sombra que me llevare el blanco día,

Y podrá desatar esta alma mía

Hora a su afán ansioso lisonjera;

 

 

Mas no, de esotra parte, en la ribera

Dejará la memoria, en donde ardía:

Nadar sabe mi llama el agua fría,

Y perder el respeto a ley severa.

 

“Alma a quien todo un dios prisión ha sido,

Venas que humor a tanto fuego han dado,

Medulas que han gloriosamente ardido:

 

Su cuerpo dejará no su cuidado;

Serán ceniza, mas tendrá sentido;

Polvo serán, mas polvo enamorado”.

 

(Francisco de Quevedo – 1580 – 1645).